Bohn
- Victor Mendes
- May 25
- 11 min read
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O Bohn e os lugares que não deveriam existir
Existem lugares em São Paulo que parecem resistir ao próprio conceito de cidade.
Não aparecem iluminados em listas de “10 restaurantes imperdíveis”.
Não possuem fila na calçada.
Não têm influenciadores fotografando drinks.
Não fazem questão de ser encontrados.
Eles existem quase como um segredo compartilhado em voz baixa entre poucas pessoas.
O Bohn era um desses lugares.
Descobri sua existência em 2018, enquanto pesquisava sobre kaiseki. Não apenas a culinária japonesa em si, mas a filosofia por trás dela. A delicadeza dos tempos. O cuidado com a temperatura do prato. A ideia de equilíbrio entre estação, textura, louça, silêncio e intenção.
Em algum blog perdido — desses antigos, quase arqueológicos da internet — li que o lugar que mais se aproximava dessa experiência em São Paulo era um pequeno reduto escondido da comunidade nipônica chamado Bohn.
A crônica não trazia endereço.
E isso tornava tudo melhor.
Havia apenas descrições vagas: uma pequena rua próxima da Paulista, no lado dos Jardins, uma casa discreta, quase invisível. Um lugar que você poderia atravessar dezenas de vezes sem perceber.
E eu provavelmente atravessei.
Porque existia uma pequena rua de apenas uma quadra naquela região que sempre me intrigou. Silenciosa demais para estar tão perto da Paulista. Uma espécie de dobra temporal escondida entre árvores, muros baixos e casas antigas.
Passei por ela várias vezes sem encontrar absolutamente nada.
Até uma noite...
Voltava de jantar já tarde. A cidade estava naquele raro momento em que São Paulo parece diminuir o volume. Menos motores. Menos buzinas. O asfalto ainda úmido refletindo luzes amareladas. Talvez uma leve neblina. Talvez apenas o cansaço transformando a noite em cinema.
Então vi dois homens tocando a campainha de uma charmosa casa próxima à esquina.
Nada de fachada chamativa. Nenhuma placa evidente. Nenhum letreiro convidativo.
Só uma casa.
Poucos segundos depois, a porta abriu e eles entraram.
Meu espírito aventureiro venceu completamente qualquer bom senso.
Fui até lá e toquei a campainha.
Uma senhora japonesa abriu a porta. Elegante, discreta, extremamente educada. Havia algo quase cerimonial na maneira como ela falava.
Perguntou imediatamente:
— Vocês têm reserva?
Perguntei, quase em segredo:
— Aqui é o Bohn?
Ela respondeu simplesmente:
— Sim.
Mas explicou que só atendiam com reserva.
Então me entregou um pequeno cartão completamente escrito em japonês. O único elemento que consegui identificar era um número de telefone.
Nada mais.
Nenhum logo moderno. Nenhum Instagram. Nenhum QR code. Nenhuma tentativa de ser descoberto.
E talvez isso fosse exatamente o que tornava tudo tão fascinante.
Algum tempo depois, decidimos comemorar o aniversário do meu irmão lá.
Ligamos, conseguimos a reserva e finalmente atravessamos aquela porta.
Ao entrar, lembro imediatamente da madeira do balcão.
Uma madeira escura, marcada pelo tempo e pelo toque de incontáveis mãos e copos de saquê. Atrás dele, algumas pessoas conversavam baixo em japonês enquanto bebiam. A luz era quente e baixa. O som ambiente quase desaparecia atrás do tilintar delicado das louças.
Era mais próximo de um ryotei escondido ou de um pequeno bar perdido em Kyoto do que da São Paulo que existia logo do lado de fora.
Sentamos em uma mesa no piso inferior.
Então veio o primeiro choque: o cardápio estava inteiramente em japonês.
Uma das donas percebeu nossa confusão e, talvez também nossa curiosidade. Perguntou como havíamos encontrado o lugar.
Explicamos sobre a antiga crônica e sobre minha busca por experiências ligadas ao kaiseki.
Ela sorriu.
Disse que sim, eles praticavam alguns princípios do kaiseki, mas que ainda estavam muito longe de reproduzir a experiência completa.
Aquilo tornou tudo ainda mais especial.
Porque não havia pretensão.
Não existia o desejo moderno de transformar qualquer tradição em espetáculo gourmet instagramável. Existia apenas respeito.
Perguntamos se havia um cardápio em português.
Não havia.
Então fizemos talvez a melhor escolha possível: pedimos um menu surpresa.
Cinco pratos.
Sem saber o que viria.
Optamos por beber apenas água. Parecia errado misturar qualquer outro sabor naquela experiência.
E os pratos começaram a chegar.
Um a um.
Cada prato parecia existir em seu próprio universo.
Todos quentes. Todos extremamente frescos. Todos apresentados com uma calma quase coreografada.
As texturas mudavam constantemente. Algumas preparações eram delicadas e macias. Outras traziam resistência, crocância, densidade. Cada prato vinha em uma louça diferente. Algumas lembravam azulejos portugueses. Outros chegavam em pequenas panelas de barro fumegantes.
Até os utensílios mudavam.
Havia pratos pensados para hashi.
Outros vinham acompanhados de talheres específicos.
Lembro especialmente dos hashis desenhados.
Pequenos detalhes que hoje parecem borrados pela memória e ao mesmo tempo impossíveis de esquecer.
Até hoje não sei exatamente o que comi naquela noite.
E sinceramente acho bonito não saber.
Porque o Bohn nunca foi apenas sobre comida.
Era sobre descoberta.
Sobre atenção.
Sobre silêncio.
Sobre entrar em um lugar que não parecia interessado em existir para o grande público.
Hoje aquela encantadora casa escondida nos Jardins não existe mais.
Quanto ao Bohn… talvez ainda funcione em outro endereço. Talvez tenha desaparecido completamente. Talvez exista apenas para quem consegue encontrá-lo.
E espero honestamente que continue assim.
Porque alguns lugares perdem a alma no instante em que se tornam fáceis demais de achar.
Certas experiências precisam continuar escondidas entre sombras, pequenas ruas silenciosas e portas sem identificação.
Como um jazz bar perdido.
Como um ryotei escondido.
Como uma memória nebulosa de uma São Paulo que ainda resiste.
E talvez, em alguma noite qualquer, alguém ainda encontre aquela campainha.
Bohn and the Places That Shouldn’t Exist
There are places in São Paulo that seem to resist the very concept of a city.
They don’t appear on glowing “10 must-visit restaurants” lists.
There are no lines outside.
No influencers photographing cocktails.
They make no effort to be found.
They exist almost like a secret shared in a whisper among very few people.
Bohn was one of those places.
I discovered its existence in 2018 while researching kaiseki. Not just Japanese cuisine itself, but the philosophy behind it. The delicacy of timing. The care given to the temperature of a dish. The idea of balance between seasonality, texture, ceramics, silence, and intention.
Somewhere in an old blog — one of those almost archaeological corners of the internet — I read that the place in São Paulo that came closest to this experience was a hidden refuge of the Japanese community called Bohn.
The article gave no address.
And that made everything better.
There were only vague descriptions: a small street near Paulista Avenue, on the Jardins side, a discreet house, almost invisible. A place you could pass dozens of times without noticing.
And I probably had.
Because there was a small one-block street in that area that had always intrigued me. Too quiet to be so close to Paulista. Almost like a temporal fold hidden between trees, low walls, and old houses.
I walked through it several times and found absolutely nothing.
Until one night.
I was coming back from dinner late in the evening. The city had entered that rare moment when São Paulo seems to lower its volume. Fewer engines. Fewer horns. The wet asphalt reflecting yellow streetlights. Maybe a thin fog. Or maybe just exhaustion transforming the night into cinema.
Then I saw two men ring the bell of a charming house near the corner.
No flashy façade. No visible sign. No inviting neon.
Just a house.
A few seconds later, the door opened and they walked inside.
My adventurous spirit completely overpowered any remaining common sense.
I walked up and rang the bell.
A Japanese woman opened the door. Elegant, discreet, incredibly polite. There was something almost ceremonial about the way she spoke.
Her first question was immediate:
“Do you have a reservation?”
I asked quietly, almost like sharing a secret:
“Is this Bohn?”
She simply answered:
“Yes.”
But explained that they only served guests with reservations.
Then she handed me a small card entirely written in Japanese. The only thing I could recognize was a phone number.
Nothing else.
No modern logo. No Instagram. No QR code. No attempt to be discovered.
And maybe that was exactly what made it so fascinating.
Some time later, we decided to celebrate my brother’s birthday there. We called, secured a reservation, and finally crossed that door.
The first thing I remember is the wood of the counter.
Dark wood, marked by time and by the touch of countless hands and sake glasses. Behind it, a few people quietly spoke Japanese while drinking. The lighting was warm and low. The ambient sound almost disappeared behind the delicate clinking of ceramics.
It felt closer to a hidden ryōtei or a tiny bar lost somewhere in Kyoto than to the São Paulo waiting outside.
We sat at a table on the lower floor.
Then came the first surprise: the menu was entirely in Japanese.
One of the owners noticed our confusion — and perhaps our curiosity as well. She asked how we had found the place.
We explained about the old article and my search for experiences connected to kaiseki.
She smiled.
She said yes, they followed some principles of kaiseki, but were still very far from reproducing the complete experience.
That somehow made everything even more special.
Because there was no pretension.
No modern urge to transform tradition into an Instagrammable gourmet spectacle. There was only respect.
We asked if there was a menu in Portuguese.
There wasn’t.
So we made what was probably the best possible choice: we ordered a surprise menu.
Five dishes.
Without knowing what would come.
We chose to drink only water. It somehow felt wrong to mix any other flavors into that experience.
And the dishes began to arrive.
One by one.
Each plate seemed to exist in its own universe.
All warm. All incredibly fresh. All presented with an almost choreographed calmness.
The textures constantly changed. Some preparations were delicate and soft. Others had resistance, crispness, density. Every dish came in different ceramics. Some resembled Portuguese tiles. Others arrived in small steaming clay pots.
Even the utensils changed.
Some dishes were meant for chopsticks.
Others came with carefully chosen cutlery.
I especially remember the illustrated chopsticks.
Tiny details that now feel blurred by memory and yet impossible to forget.
To this day, I’m still not entirely sure what I ate that night.
And honestly, I think it’s beautiful not knowing.
Because Bohn was never only about food.
It was about discovery.
About attention.
About silence.
About entering a place that seemed completely uninterested in existing for the general public.
Today, that enchanting hidden house in Jardins no longer exists.
As for Bohn… perhaps it still operates somewhere else. Perhaps it disappeared completely. Perhaps it only exists for those capable of finding it.
And I sincerely hope it stays that way.
Because some places lose their soul the moment they become too easy to find.
Certain experiences deserve to remain hidden between shadows, quiet streets, and doors without signs.
Like a lost jazz bar.
Like a hidden ryōtei.
Like a hazy memory of a São Paulo that still resists.
And perhaps, on some ordinary night, someone will still find that doorbell.
Bohn y los lugares que no deberían existir
Existen lugares en São Paulo que parecen resistirse al propio concepto de ciudad.
No aparecen iluminados en listas de “10 restaurantes imperdibles”.
No tienen filas en la puerta.
No hay influencers fotografiando cócteles.
No hacen ningún esfuerzo por ser encontrados.
Existen casi como un secreto compartido en voz baja entre muy pocas personas.
Bohn era uno de esos lugares.
Descubrí su existencia en 2018 mientras investigaba sobre el kaiseki. No solo sobre la gastronomía japonesa en sí, sino sobre la filosofía detrás de ella. La delicadeza de los tiempos. El cuidado con la temperatura de cada plato. La idea de equilibrio entre estación, textura, cerámica, silencio e intención.
En algún blog perdido — de esos rincones casi arqueológicos de internet — leí que el lugar de São Paulo que más se acercaba a esa experiencia era un escondite de la comunidad japonesa llamado Bohn.
La crónica no tenía dirección.
Y eso hacía todo aún mejor.
Solo había descripciones vagas: una pequeña calle cerca de la Avenida Paulista, del lado de Jardins, una casa discreta, casi invisible. Un lugar por el que uno podía pasar decenas de veces sin notarlo.
Y probablemente yo ya había pasado.
Porque había una pequeña calle de apenas una cuadra en esa región que siempre me intrigó. Demasiado silenciosa para estar tan cerca de Paulista. Casi como una grieta temporal escondida entre árboles, muros bajos y casas antiguas.
Pasé varias veces por allí sin encontrar absolutamente nada.
Hasta una noche.
Volvía de cenar ya tarde. La ciudad estaba en ese raro momento en que São Paulo parece bajar el volumen. Menos motores. Menos bocinas. El asfalto húmedo reflejando luces amarillas. Tal vez una ligera neblina. O quizás solo el cansancio transformando la noche en cine.
Entonces vi a dos hombres tocar el timbre de una encantadora casa cerca de la esquina.
Nada de fachadas llamativas. Ningún letrero visible. Ningún neón invitando a entrar.
Solo una casa.
Pocos segundos después, la puerta se abrió y ellos entraron.
Mi espíritu aventurero venció completamente cualquier resto de sentido común.
Me acerqué y toqué el timbre.
Una señora japonesa abrió la puerta. Elegante, discreta, extremadamente educada. Había algo casi ceremonial en su manera de hablar.
La primera pregunta fue inmediata:
— ¿Tienen reserva?
Pregunté en voz baja, casi como compartiendo un secreto:
— ¿Aquí es Bohn?
Ella respondió simplemente:
— Sí.
Pero explicó que solo atendían con reserva.
Entonces me entregó una pequeña tarjeta completamente escrita en japonés. Lo único que pude identificar fue un número de teléfono.
Nada más.
Ningún logo moderno. Ningún Instagram. Ningún código QR. Ningún intento de ser descubierto.
Y quizás eso era exactamente lo que lo hacía tan fascinante.
Tiempo después decidimos celebrar el cumpleaños de mi hermano allí. Llamamos, conseguimos la reserva y finalmente cruzamos aquella puerta.
Lo primero que recuerdo es la madera del mostrador.
Una madera oscura, marcada por el tiempo y por el contacto de innumerables manos y vasos de sake. Detrás de ella, algunas personas conversaban en japonés mientras bebían. La iluminación era cálida y tenue. El sonido ambiente casi desaparecía detrás del delicado tintinear de la cerámica.
Se sentía más cercano a un ryōtei escondido o a un pequeño bar perdido en Kioto que a la São Paulo que esperaba afuera.
Nos sentamos en una mesa en el piso inferior.
Entonces llegó la primera sorpresa: el menú estaba completamente en japonés.
Una de las dueñas notó nuestra confusión — y quizás también nuestra curiosidad. Preguntó cómo habíamos encontrado el lugar.
Le contamos sobre la antigua crónica y mi búsqueda de experiencias relacionadas con el kaiseki.
Ella sonrió.
Dijo que sí, practicaban algunos principios del kaiseki, pero que aún estaban muy lejos de reproducir la experiencia completa.
Y eso hizo que todo fuera todavía más especial.
Porque no había pretensión.
No existía ese deseo moderno de transformar cualquier tradición en un espectáculo gourmet para Instagram. Solo había respeto.
Preguntamos si existía un menú en portugués.
No existía.
Entonces hicimos probablemente la mejor elección posible: pedimos un menú sorpresa.
Cinco platos.
Sin saber qué llegaría.
Elegimos beber solamente agua. Parecía incorrecto mezclar cualquier otro sabor con aquella experiencia.
Y los platos comenzaron a llegar.
Uno por uno.
Cada plato parecía existir en su propio universo.
Todos calientes. Todos extremadamente frescos. Todos presentados con una calma casi coreografiada.
Las texturas cambiaban constantemente. Algunas preparaciones eran delicadas y suaves. Otras tenían resistencia, crocancia, densidad. Cada plato llegaba en una cerámica diferente. Algunas recordaban azulejos portugueses. Otros llegaban en pequeñas ollas de barro humeantes.
Incluso los utensilios cambiaban.
Había platos pensados para comer con hashi.
Otros venían acompañados por cubiertos específicos.
Recuerdo especialmente los hashis ilustrados.
Pequeños detalles que hoy parecen borrosos por la memoria y al mismo tiempo imposibles de olvidar.
Hasta hoy no tengo total certeza de lo que comí aquella noche.
Y sinceramente creo que es hermoso no saberlo.
Porque Bohn nunca fue solamente sobre comida.
Era sobre descubrimiento.
Sobre atención.
Sobre silencio.
Sobre entrar en un lugar que parecía completamente desinteresado en existir para el gran público.
Hoy aquella encantadora casa escondida en Jardins ya no existe.
En cuanto a Bohn… quizás todavía funcione en otra dirección. Quizás desapareció por completo. Quizás solo existe para quienes son capaces de encontrarlo.
Y honestamente espero que siga siendo así.
Porque algunos lugares pierden su alma en el instante en que se vuelven demasiado fáciles de encontrar.
Ciertas experiencias merecen permanecer escondidas entre sombras, calles silenciosas y puertas sin identificación.
Como un jazz bar perdido.
Como un ryōtei escondido.
Como una memoria nebulosa de una São Paulo que todavía resiste.
Y quizás, en alguna noche cualquiera, alguien todavía encuentre aquel timbre.





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