Réveillon Memorável
- Victor Mendes
- Apr 29
- 10 min read
Music
O Réveillon em que São Paulo me testou (e quase ganhou)
Por Victor Mendes – SP by a Local

Qual foi o melhor réveillon da sua vida?
Eu não faço a menor ideia do meu.
Mas tem um que eu nunca esqueci — e não é exatamente um bom sinal.
Na época, eu trabalhava como fotógrafo numa casa de shows daquelas bem paulistanas: pequena, íntima, meio charmosa… tipo apartamento de solteiro bem arrumado — cabe gente famosa, mas ninguém fica confortável por muito tempo.
Era aquele limbo artístico onde você encontra nomes como Cauby Peixoto e Demonios da Garoa… artistas que já foram gigantes, mas naquele momento estavam mais pra “lenda viva em promoção de fim de ano”.
Meu trabalho? Coluna social.
Ou seja: fingir que tudo aquilo era mais glamouroso do que realmente era — tipo filtro de Instagram antes do Instagram existir.
Mas tinha uma vantagem: às 22h eu tava liberado.
E aí começou o problema.
Minha família no interior, provavelmente feliz, alimentada e emocionalmente estável com uma ceia libanesa digna de novela.
Meus amigos? Na praia.
Ir pra lá? Só se eu quisesse passar a virada dentro de um carro parado na serra — uma experiência tão emocionante quanto assistir retrospectiva na TV aberta.
E aqui vale um parêntese importante:
programação de TV de réveillon é tipo elevador de prédio antigo — você entra sem expectativa e ainda assim consegue se decepcionar.
Plano A: ficar em casa com os gatos.
Plano B: DVD repetido pela milésima vez (Netflix nessa época era praticamente um boato americano, tipo “dizem que funciona pelo correio”).
Até que surge a proposta:
— “Vou passar na chácara do Gordo. Cola lá.”
E aí, como todo paulistano otimista — ou ingênuo — eu pensei:
“Por que não?”
A jornada (ou: GPS raiz versão sofrimento)
Sem Waze , sem Google Maps, sem dignidade.
Só um papel com instruções que pareciam escritas por alguém que claramente odiava quem ia usar:
“vira depois da árvore torta”
“segue até a bexiga amarrada”
“primeira saída depois do portão azul”
Não tinha distância. Não tinha tempo.
Era basicamente um RPG onde você não sabe nem qual é a missão.
Dirigir ali era como tentar entender instrução de montagem de móvel… só que no escuro… e com risco real.
Mas, contra todas as probabilidades (e contra todo bom senso), eu cheguei.
23:33.
A festa (ou: o after que acabou antes de começar)
Meus amigos estavam… como posso dizer…
no modo econômico de consciência.
Espalhados pelo sofá como se tivessem sido largados ali por um caminhão de entrega.
O Gordo, herói nacional, reacendeu a churrasqueira — aquele espírito brasileiro de “dá pra esquentar”.
Deu meia-noite.
Nada de fogos.
Nada de TV.
Nada de contagem regressiva.
Só um relógio fazendo “bip”.
— Feliz ano novo..
E pronto.
Foi o réveillon mais minimalista da história — tipo design escandinavo, só que emocional.
Cinco minutos depois:
— “Vou dormir, amanhã cedo volto pra São Paulo.”
E assim, um por um, todos foram apagando.
E eu ali.
Sóbrio.
Acordado.
Sem internet.
Sem sinal.
Sem livro.
Sem nada.
Mais sozinho que Wi-Fi de rodoviária às 18h.
A decisão (ou: claramente eu não aprendo)
Olhei pro Gordo:
— “Obrigado… mas vou voltar.”
Ele concordou com a energia de quem já estava dormindo de olho aberto.
00:33 eu já estava de volta na estrada.
O combustível (ou: São Paulo te testa até o fim)
Tanque na reserva.
E aqui começa o verdadeiro réveillon.
Primeiro posto: fechado.
Segundo: fechado.
Terceiro: fechado.
Eu já estava dirigindo igual motorista de aplicativo quando vê avaliação 4.6 — com medo e tentando não piorar a situação.
O carro parecia que ia pedir ajuda médica a qualquer momento.
Luz da reserva acesa há tanto tempo que já devia estar pagando aluguel.
Até que…
Um posto aberto.
O último antes de São Paulo.
Parecia miragem.
Tipo ver padaria aberta no dia 1º de janeiro — coisa rara, quase mística.
Abasteci.
Pelas minhas contas, eu tinha gasolina suficiente pra mais uns… dois pensamentos.
São Paulo (amor tóxico)
Voltei.
Porque São Paulo é isso.
Ela te testa, te esgota, te coloca em situações absurdas…
mas no final, ela deixa você voltar.
Como aquele relacionamento que você sabe que não faz bem, mas também sabe que não consegue largar.
O golpe final (plot twist nível novela)
Cheguei em casa.
Estacionei.
Subi o elevador (lento, claro — porque nada em São Paulo termina rápido).
Ouço os gatos.
Abro a mochila.
Cadê a chave?
…
Nada.
Revirei tudo.
Nada.
E aí você entende que a vida é uma sequência de decisões ruins bem encadeadas.
Chaveiro?
Virada de ano.
Impossível.
Ou custaria um rim… e meio.
Liguei pra uma amiga.
Uma vez.
Duas.
Três.
Ela atendeu.
Nunca um “alô” foi tão bonito.
Passei a noite lá.
No dia seguinte, consegui um chaveiro que cobrou só um terço de rim — praticamente uma promoção.
Conclusão
E assim foi meu réveillon:
fui pra uma festa que acabou antes de começar
quase fiquei sem gasolina no meio do nada
voltei pra cidade que me esgota
e não consegui entrar na minha própria casa
Tudo isso em menos de 6 horas.
E ainda assim…
Foi inesquecível.
Porque São Paulo é assim:
ela não te dá paz,
mas te dá história.
E no fim das contas…
é isso que a gente leva.
The New Year’s Eve When São Paulo Tested Me (and Almost Won)
By Victor Mendes – SP by a Local
What was the best New Year’s Eve of your life?
I honestly don’t remember mine.
But there’s one I’ll never forget — and that’s usually not a good sign.
Back then, I worked as a photographer at one of those very São Paulo kind of venues: small, intimate, kind of charming… like a well-kept bachelor apartment — it can host famous people, but nobody stays comfortable for too long.
It was that strange artistic limbo where you’d see names like Cauby Peixoto and Demonios da Garoa … artists who were once huge, but at that moment felt more like “living legends on a year-end discount tour.”
My job? Social column.
Which basically means: pretending everything was more glamorous than it actually was — like Instagram filters before Instagram existed.
But there was a catch — or a blessing:
I was done at 10 PM.
And that’s when the problem began.
My family was in the countryside, probably happy, well-fed, emotionally stable, enjoying a proper Lebanese dinner like something out of a TV drama.
My friends? At the beach.
Going there? Only if I wanted to spend New Year’s stuck inside a car on the mountain road — an experience about as thrilling as watching year-end TV specials.
And speaking of that:
New Year’s TV programming is like an old building elevator — you walk in with zero expectations… and still manage to feel disappointed.
Plan A: stay home with my cats.
Plan B: watch the same DVD for the thousandth time (back when Netflix was basically an American rumor — “they say it works by mail”).
Then came the invitation:
— “I’m going to Gordo’s country house. Come by.”
And like every optimistic — or naïve — São Paulo resident, I thought:
“Why not?”
The journey (or: analog GPS, suffering edition)
No Waze.
No Google Maps.
No dignity.
Just a piece of paper with directions that sounded like they were written by someone who clearly hated whoever would use them:
“turn after the crooked tree”
“follow the road until the balloon tied to a fence”
“first exit after the blue gate”
No distance. No time estimate.
Just faith.
Driving there felt like assembling furniture without instructions… in the dark… with real consequences.
But somehow — against all odds and common sense — I made it.
11:33 PM.
The party (or: the afterparty that ended before it began)
My friends were… how can I put this…
running on low battery.
Spread across the couch like they had just been delivered there in bulk.
Gordo — a national hero — reignited the barbecue. That classic Brazilian spirit of: “we can reheat this.”
Midnight came.
No fireworks.
No TV.
No countdown.
Just a watch going “beep.”
— Happy New Year.
That was it.
It was the most minimalist New Year’s celebration in history — Scandinavian design, but emotional.
Five minutes later:
— “I’m going to sleep. Early drive back to São Paulo tomorrow.”
And just like that, one by one, everyone powered off.
And there I was.
Sober.
Awake.
No internet.
No signal.
No books.
Alone in a way that makes airport Wi-Fi feel socially connected.
The decision (or: I clearly don’t learn)
I looked at Gordo:
— “Thanks… but I’m heading back.”
He agreed with the energy of someone already asleep with their eyes open.
At 12:33 AM, I was already back on the road.
The fuel (or: São Paulo always pushes you a little further)
Fuel tank: almost empty.
And this is where the real New Year’s Eve begins.
First gas station: closed.
Second: closed.
Third: closed.
At this point, I was driving like a rideshare driver with a 4.6 rating — nervous and trying not to make things worse.
The car felt like it was about to request medical assistance.
The fuel warning light had been on so long it probably deserved rent.
Then…
A gas station.
Open.
The last one before São Paulo.
It felt like a mirage.
Like finding a bakery open on January 1st — rare, almost mythical.
I filled the tank.
By my calculations, I had enough fuel left for… maybe two more thoughts.
São Paulo (a toxic love story)
And I came back.
Because that’s what São Paulo is.
It tests you, drains you, puts you in absurd situations…
but in the end, it lets you return.
Like that relationship you know isn’t healthy — but you also know you’re not leaving.
The final blow (plot twist level: prime-time soap opera)
I got home.
Parked.
Took the elevator (slow, of course — because nothing in São Paulo ends quickly).
I hear my cats.
Open my bag.
Where are the keys?
…
Nothing.
I searched everything.
Nothing.
And that’s when you realize life is just a sequence of bad decisions perfectly aligned.
A locksmith?
New Year’s night?
Impossible.
Or it would cost a kidney… and a half.
I called a friend.
Once.
Twice.
Three times.
She answered.
Never had a “hello” sounded so beautiful.
I stayed at her place.
The next morning, I found a locksmith who only charged me a third of a kidney — basically a holiday discount.
Conclusion
So that was my New Year’s Eve:
I went to a party that ended before it started
almost ran out of fuel in the middle of nowhere
came back to a city that exhausts me
and couldn’t even get into my own home
All of that in less than six hours.
And still…
It was unforgettable.
Because São Paulo is like that:
it doesn’t give you peace,
but it gives you stories.
And in the end…
that’s what we keep.
El Año Nuevo en que São Paulo me puso a prueba (y casi ganó)
Por Victor Mendes – SP by a Local
¿Cuál fue el mejor Año Nuevo de tu vida?
Yo no tengo la menor idea del mío.
Pero hay uno que nunca olvidé… y eso normalmente no es buena señal.
En esa época, trabajaba como fotógrafo en uno de esos locales muy al estilo São Paulo: pequeño, íntimo, medio encantador… como un departamento de soltero bien arreglado — cabe gente famosa, pero nadie se siente cómodo por mucho tiempo.
Era ese limbo artístico donde aparecían nombres como Cauby Peixoto y Demonios da Garoa … artistas que alguna vez fueron enormes, pero en ese momento parecían más bien “leyendas vivas en promoción de fin de año”.
¿Mi trabajo? Columna social.
Es decir: fingir que todo era más glamuroso de lo que realmente era — como un filtro de Instagram antes de que existiera Instagram.
Pero tenía una ventaja:
A las 22:00 yo ya estaba libre.
Y ahí empezó el problema.
Mi familia estaba en el interior, probablemente feliz, bien alimentada y emocionalmente estable, disfrutando una cena libanesa digna de telenovela.
¿Mis amigos? En la playa.
¿Ir para allá? Solo si quería pasar el Año Nuevo dentro de un auto parado en la carretera de la sierra — una experiencia tan emocionante como ver especiales de fin de año en la TV.
Y hablando de eso:
La programación de televisión de Año Nuevo es como un ascensor viejo — entras sin expectativas… y aun así logras decepcionarte.
Plan A: quedarme en casa con mis gatos.
Plan B: ver el mismo DVD por milésima vez (en esa época Netflix era prácticamente un rumor estadounidense — “dicen que funciona por correo”).
Entonces aparece la invitación:
— “Voy a pasar el Año Nuevo en la chacra del Gordo. Ven.”
Y como todo paulista optimista — o ingenuo — pensé:
“¿Por qué no?”
El viaje (o: GPS analógico versión sufrimiento)
Sin Waze.
Sin Google Maps.
Sin dignidad.
Solo un papel con instrucciones que parecían escritas por alguien que claramente odiaba a quien las iba a usar:
“gira después del árbol torcido”
“sigue hasta el globo amarrado”
“primera salida después del portón azul”
Sin distancia. Sin tiempo.
Solo fe.
Manejar ahí era como armar un mueble sin instrucciones… en la oscuridad… con consecuencias reales.
Pero de alguna forma — contra toda lógica — llegué.
23:33.
La fiesta (o: el after que terminó antes de empezar)
Mis amigos estaban… ¿cómo decirlo?
Funcionando en modo ahorro de energía.
Tirados en el sofá como si los hubieran dejado ahí por entrega.
El Gordo — héroe nacional — volvió a encender la parrilla. Ese espíritu brasileño de: “se puede recalentar”.
Llegó la medianoche.
Sin fuegos artificiales.
Sin televisión.
Sin cuenta regresiva.
Solo un reloj haciendo “bip”.
— Feliz año nuevo.
Y listo.
Fue el Año Nuevo más minimalista de la historia — diseño escandinavo, pero emocional.
Cinco minutos después:
— “Voy a dormir, mañana temprano regreso a São Paulo.”
Y uno por uno, todos se apagaron.
Y ahí estaba yo.
Sobrio.
Despierto.
Sin internet.
Sin señal.
Sim libro.
Sin nada.
Más solo que Wi-Fi de terminal en hora pico.
La decisión (o: claramente no aprendo)
Miré al Gordo:
— “Gracias… pero me voy.”
Él aceptó con la energía de alguien que ya estaba dormido con los ojos abiertos.
00:33 y yo ya estaba de regreso en la carretera.
La gasolina (o: São Paulo siempre te exige un poco más)
Tanque en reserva.
Y ahí empieza el verdadero Año Nuevo.
Primer puesto: cerrado.
Segundo: cerrado.
Tercero: cerrado.
Ya estaba manejando como conductor de app con calificación 4.6 — nervioso y tratando de no empeorar todo.
El auto parecía que en cualquier momento iba a pedir ayuda médica.
La luz de reserva llevaba tanto tiempo encendida que ya debía pagar alquiler.
Hasta que…
Un puesto abierto.
El último antes de São Paulo.
Parecía un espejismo.
Como encontrar una panadería abierta el 1 de enero — raro, casi místico.
Llené el tanque.
Según mis cálculos, tenía gasolina para… dos pensamientos más.
São Paulo (un amor tóxico)
Y volví.
Porque São Paulo es así.
Te prueba, te desgasta, te pone en situaciones absurdas…
pero al final, te deja regresar.
Como esa relación que sabes que no es sana… pero tampoco puedes dejar.
El golpe final (plot twist nivel telenovela)
Llegué a casa.
Estacioné.
Subí en el ascensor (lento, claro — porque nada en São Paulo termina rápido).
Escucho a mis gatos.
Abro la mochila.
¿Las llaves?
…
Nada.
Revisé todo.
Nada.
Y ahí entiendes que la vida es una cadena perfecta de malas decisiones.
¿Cerrajero?
Noche de Año Nuevo.
Imposible.
O costaría un riñón… y medio.
Llamé a una amiga.
Una vez.
Dos.
Tres.
Contestó.
Nunca un “hola” fue tan bonito.
Me quedé en su casa.
A la mañana siguiente conseguí un cerrajero que cobró solo un tercio de riñón — prácticamente una promoción.
Conclusión
Ese fue mi Año Nuevo:
fui a una fiesta que terminó antes de empezar
casi me quedo sin gasolina en medio de la nada
volví a una ciudad que me agota
y no pude entrar a mi propia casa
Todo eso en menos de seis horas.
Y aun así…
Fue inolvidable.
Porque São Paulo es así:
no te da paz,
pero te da historias.
Y al final…
eso es lo que uno se lleva.



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