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Bolo De Aniversário de São Paulo - Capítulo 4


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Capítulo 4 — Um bolo que sobreviveu até sem poder ir para a rua


Retorno comunitário, pandemia e Walter Taverna


Durante muitos anos, bastava chegar à Rua Rui Barbosa no dia 25 de janeiro para saber a idade de São Paulo.

Não era preciso calendário.

Nem fazer conta.

Bastava olhar para a mesa.

450 anos.

450 metros.

451 anos.

451 metros.

452 anos.

452 metros.

Até 2008.

Então chegou 2009.

São Paulo completou 455 anos.

E a mesa não estava lá.

No lugar dos 455 metros de bolo que deveriam atravessar o Bixiga havia uma intervenção pintada no asfalto.

Era uma solução ao mesmo tempo divertida e triste.

O bolo continuava ali.

Mas só como desenho.

Não tinha farinha.

Não tinha recheio.

Não tinha cobertura.

Ninguém podia atacá-lo.

Ninguém podia levá-lo para casa.

Depois de décadas em que o problema era fazer o bolo sobreviver por mais de quatro segundos, o Bixiga enfrentava uma situação nova:

como fazer a própria tradição sobreviver?


O bolo dormiu. A festa, não.


É comum encontrar a afirmação de que o Bolo do Bixiga ficou oito anos sem acontecer, entre 2009 e 2016.

Ela está correta se estivermos falando do grande bolo comunitário disposto sobre mesas na Rua Rui Barbosa.

Mas não significa que o Bixiga simplesmente fechou as portas em janeiro e esqueceu o aniversário de São Paulo.

A história foi mais confusa.

E mais interessante.

Depois da perda dos patrocinadores, tornou-se impossível continuar produzindo aquele bolo industrial de centenas de metros.

A festa, porém, ainda tinha público.

Tinha Walter.

Tinha artistas.

Tinha comerciantes.

Tinha moradores.

Tinha memória.

Nos anos seguintes houve shows, apresentações culturais e diferentes tentativas de manter algum tipo de celebração. Em algumas edições, quem comparecia recebia bolinhos industrializados embalados individualmente.

Era praticamente o oposto do antigo ataque.

Antes:

milhares de pessoas diante de centenas de metros de bolo.

Agora:

um bolinho.

Um pacote.

Uma pessoa.

Organizado.

Higiênico.

Previsível.

Sem cotoveladas.

Sem panelas.

Sem alguém surgindo com uma pá de lixo para transportar sobremesa.

Sob qualquer critério racional, era um sistema melhor.

Sob o critério do Bixiga...

faltava alguma coisa.

O bolo tinha sobrevivido.

Mas o ritual havia desaparecido.


Walter ainda queria a rua


Walter Taverna não desistiu daquela imagem.

As mesas.

Os bolos caseiros.

A comunidade chegando aos poucos.

A cobertura nunca perfeitamente uniforme.

Um bolo de chocolate encostado num de laranja.

Depois um de coco.

Depois outro cuja receita ninguém perguntava.

Um grande bolo que só existia porque centenas de pequenos bolos decidiam ficar juntos.

Era justamente assim que a tradição tinha começado.

Muito antes das toneladas de farinha.

Antes do SENAI.

Antes dos caminhões.

Antes dos patrocinadores.

Antes dos recordes.

O próprio Walter contou, no momento da retomada, que havia alguns anos vinha pensando que a comunidade poderia ajudar a trazer aquele formato de volta.

Talvez fosse preciso admitir uma coisa.

O bolo tinha crescido tanto que se tornara dependente de empresas para existir.

Quando as empresas foram embora, parecia que a tradição tinha morrido.

Mas Armandinho nunca havia começado com empresas.

Começara batendo de porta em porta.

Talvez a solução estivesse escondida exatamente no passado.


Em algum momento, a neta começou a carregar as mesas


É fácil contar esta história como uma sucessão de homens.

Armandinho cria.

Armandinho morre.

Walter assume.

Walter morre.

Thaís assume.

Mas não foi assim.

A passagem de uma geração para outra aconteceu lentamente.

E aconteceu com Walter ainda ali.

Sua neta, Thaís Taverna, cineasta e produtora cultural, foi se envolvendo cada vez mais com a preservação da festa e do próprio Bixiga.

Fontes recentes situam por volta de 2014 uma nova mobilização organizada por Thaís e amigos do bairro. Eles começaram novamente a procurar moradores e comerciantes dispostos a levar bolos e reconstruir a lógica comunitária.

Não significa que naquele ano tenha reaparecido instantaneamente o grande bolo como seria visto depois.

Foi um processo.

Conversas.

Articulação.

Redes sociais.

Boca a boca.

Gente convencendo gente.

E houve uma conquista institucional importante no meio do caminho.

Em 2015, a Festa do Bolo do Bixiga entrou oficialmente para o calendário de eventos da cidade de São Paulo, pela Lei 16.144.

Isso não devolvia os antigos patrocinadores.

Mas ajudava com estrutura pública para a festa — palco, som, limpeza, segurança e outras necessidades.

O bolo começava a encontrar novamente um caminho até a rua.


“Façam um bolo e tragam”


A proposta para a grande retomada era quase constrangedora de tão simples.

Não precisavam encontrar uma empresa capaz de fabricar 463 metros.

Não precisavam comprar treze mil ovos.

Não precisavam produzir uma tonelada de cobertura.

Precisavam de pessoas.

A convocação poderia ser resumida assim:

Faça um bolo em casa e leve para o Bixiga.

Um.

Só um.

O bairro cuidaria do resto.

A comunicação aconteceu pelas redes sociais e pelo velho método que aparentemente nunca saiu de moda no Bixiga:

boca a boca.

Mammas.

Mainhas.

Manos.

Moradores.

Comerciantes.

Amigos do bairro.

Qualquer pessoa podia participar.

Era quase uma reprodução daquela manhã dos anos 1980 que imaginamos no primeiro capítulo.

Só que agora havia Facebook.


25 de janeiro de 2017


São Paulo completou 463 anos.

Walter tinha 83.

Naquela manhã, uma mesa de aproximadamente 150 metros foi preparada na Rua Rui Barbosa.

Não havia patrocinador bancando um bolo industrial.

Havia algo estimado em 300 pessoas envolvidas e uma convocação aberta para que cada participante trouxesse sua contribuição.

E elas começaram a chegar.

Uma mulher com um bolo.

Depois outra.

Uma família.

Um comerciante.

Um morador que talvez nunca tivesse participado da festa.

Áurea Caviquioli conhecia aquela história melhor que muitos.

Ela ajudava na montagem do bolo desde os anos 1980.

Agora retornava acompanhada da filha, Nádia Garcia.

As duas haviam comprado ingredientes para preparar um bolo de laranja, discutindo ainda se receberia glacê ou chocolate.

É uma pequena história dentro da grande história.

Nos anos 1980:

a mãe ajudava a montar.

Em 2017:

mãe e filha voltavam juntas.

Era exatamente isso que estava sendo reconstruído.

Não uma receita.

Uma continuidade.


O bolo começa a crescer outra vez


Às nove da manhã ainda não havia certeza do tamanho final.

Isso fazia parte da nova lógica.

Ninguém poderia telefonar para uma fábrica e perguntar:

— Quantos metros estão prontos?

O bolo agora dependia de quem aparecesse.

Uma assadeira chegava.

Mais um pedaço.

Outra.

Mais meio metro.

Outra.

Mais bolo.

A mesa ia sendo preenchida diante das pessoas.

No fim, os bolos colocados lado a lado formaram mais de 120 metros de sobremesa na Rua Rui Barbosa.

Não eram os 463 metros sonhados por Walter.

Muito menos os 454 metros industriais de 2008.

Mas isso quase não importava.

Depois de anos distribuindo bolinhos embalados, havia novamente uma grande mesa.

Havia novamente coberturas diferentes se encontrando.

Havia novamente bolo feito por moradores.

E havia Walter.

Emocionado com a volta de uma festa que julgava grande demais para desaparecer.


A regra mais importante mudou


Uma coisa, entretanto, não voltou.

O ataque.

A velha largada simultânea, com milhares de pessoas avançando em direção às mesas, ficou no passado.

No novo formato, voluntários da própria comunidade cortavam os bolos e entregavam os pedaços de mão em mão.

Um pedaço.

Depois outro.

Depois outro.

Nada de quatro segundos.

Nada de guerra.

Nada de bolo voando.

A festa tinha recuperado sua origem comunitária sem recuperar o comportamento que quase a havia destruído.

E talvez esse tenha sido o verdadeiro aprendizado de 2008.

O caos podia continuar na variedade das receitas.

Nas músicas.

Nas pessoas.

No Bixiga.

Mas o bolo agora precisava chegar à boca.

Não ao chão.


Thaís olha para a mesa


Há um depoimento de Thaís Taverna sobre aquele dia que revela melhor do que números o que estava acontecendo.

Ela contou a emoção de ver chegando tanto moradores conhecidos quanto pessoas com quem nunca havia sequer conversado.

Tinham preparado alguma coisa em suas casas.

Transportado pela cidade.

E aparecido ali simplesmente porque acreditavam na festa.

Podemos imaginar avô e neta diante da mesa no fim daquela manhã.

— Não chegou a 463 metros.

Walter observa os bolos.

Chocolate.

Laranja.

Coco.

Bolos tortos.

Bolos perfeitos.

Coberturas profissionais.

Coberturas que claramente tinham sobrevivido com dificuldade ao transporte.

Ele poderia responder:

— Chegou gente.

Talvez fosse essa a unidade de medida que faltava.

Durante anos, eles haviam medido o sucesso em metros.

Agora podiam medir em pessoas.


2018 — agora já sabemos que funciona


No ano seguinte, ninguém precisava mais provar que era possível.

A comunidade voltou a ser convocada para comemorar os 464 anos de São Paulo.

A orientação continuava deliciosamente simples:

faça um bolo;

leve para a Rua Rui Barbosa;

coloque-o junto dos outros.

Thaís já aparece nas fontes daquele ano claramente à frente da celebração, enquanto Walter permanecia como a grande memória viva e referência do evento. A produtora Nádia Garcia também aparece entre as pessoas importantes dessa reconstrução comunitária.

Isso é fundamental para entender a história.

Thaís não herdaria o bolo em 2022.

Ela já o estava organizando ao lado do avô.

A transmissão da tradição aconteceu em vida.

Sem cerimônia.

Provavelmente entre telefonemas, reuniões, bolos, montagem de mesas e problemas de última hora.


2019 — 150 metros e duas mil pessoas


Em 2019, São Paulo fez 465 anos.

Aquela experiência que em 2017 parecia um resgate já estava novamente adquirindo cara de tradição.

Foram reunidos aproximadamente 150 metros de bolos.

O público foi estimado em duas mil pessoas.

O prefeito Bruno Covas apareceu.

No palco houve Língua de Trapo, Bateria 013, SamBV e Acabocaria.

E a definição usada pelo próprio Portal do Bixiga era significativa:

o bolo agora era “produzido pela própria comunidade”.

Isso mudava tudo.

Antes, a pergunta era:

Quem fabrica o Bolo do Bixiga?

Agora a resposta era:

quem aparecer.


2020 — “Quem faz o bolo é você”


O convite de 2020 dizia isso literalmente em destaque:

Quem faz o bolo é você.

São Paulo completaria 466 anos.

Além dos bolos trazidos pelos moradores, a festa teria uma exposição de bolos decorados por profissionais com o tema da cidade, troca de livros no Fusca Literário e uma programação musical profundamente ligada ao bairro.

Oswaldinho da Cuíca.

Thobias da Vai-Vai.

Bateria 013.

Orquestra Brasileira de Música Jamaicana.

Diversos músicos do samba do Bixiga.

A relação com a Vai-Vai, que no começo desta série tratamos cuidadosamente para não atribuir à escola uma participação institucional na criação do bolo sem documentação, agora aparece muito mais claramente na programação contemporânea.

O bolo havia se transformado numa plataforma para celebrar o próprio bairro.

E então o mundo parou.


2021 — uma Rua Rui Barbosa vazia


No dia 25 de janeiro de 2021, São Paulo completou 467 anos.

Mas havia uma pandemia.

A Covid-19 havia transformado justamente aquilo que fazia o Bolo do Bixiga existir — pessoas juntas, comida compartilhada, uma multidão na mesma rua — em algo perigoso.

Não havia como adaptar o ataque.

Não havia como simplesmente afastar um pouco as mesas.

A própria essência da festa era uma aglomeração.

A decisão foi:

não colocar o bolo na rua.

Depois de tudo o que o Bixiga havia atravessado, a frase parecia familiar.

Mais uma vez, a tradição precisava descobrir como existir sem sua forma física.

Desta vez o “bolo virtual” seria realmente virtual.

A comunidade pediu que pessoas enviassem pequenos vídeos desejando parabéns a São Paulo.

A meta simbólica acompanhava novamente a idade da cidade.

Foram reunidos 467 vídeos enviados de diferentes cidades, estados e até de fora do país.

O princípio continuava o mesmo.

Antes:

uma pessoa fazia um bolo.

Depois outra.

Depois outra.

Juntos formavam algo grande.

Agora:

uma pessoa gravava um vídeo.

Depois outra.

Depois outra.

467 pequenas contribuições formavam uma festa.

O ingrediente havia mudado.

A lógica, não.


Quando não podemos dar bolo, damos comida


No início de 2022, parecia possível imaginar o retorno.

São Paulo completaria 468 anos.

Mas o aumento dos casos de Covid-19 e um surto de gripe tornaram novamente arriscada uma festa de rua daquele tamanho.

Só que dessa vez surgiu uma pergunta diferente.

Se não podemos fazer comida para uma festa...

por que não usar essa mobilização para quem está precisando de comida?

O bolo foi substituído por uma campanha contra a fome.

A meta era enorme e deliberadamente simbólica:

468 toneladas de alimentos e produtos de higiene.

Uma tonelada para cada ano de São Paulo.

Não encontramos documentação confiável demonstrando que essa meta tenha sido efetivamente atingida — portanto ela deve ser tratada como meta, e não como resultado.

Mas talvez mais importante que o número seja observar quem estava por trás da iniciativa.

Não era “a família Taverna”.

Era a Rede Social Bela Vista.

Moradores.

Comerciantes.

Museu Memória do Bixiga.

Paróquia Nossa Senhora Achiropita.

Comunidade Evangélica do Bixiga.

Movimento Sem Teto do Centro.

Casa de Capoeira Mestre Ananias.

Outras organizações e pessoas do bairro.

Os pontos de coleta se espalharam pela região.

Agora a Achiropita, cuja participação na criação do bolo não conseguimos provar no primeiro capítulo, aparece documentalmente integrada à rede que mantém vivo seu espírito décadas depois.

E Thaís resumiu a lógica daquela articulação:

o bairro podia ser múltiplo, mas sabia caminhar junto.


O bolo nunca tinha sido apenas italiano


Talvez seja nesse momento que a transformação iniciada por Armandinho fique mais evidente.

No começo da história aparecem as mammas italianas.

Agora aparecem:

mammas.

Mainhas.

Manos.

Sambistas.

Católicos.

Evangélicos.

Capoeiristas.

Movimentos de moradia.

Comerciantes.

Artistas.

Moradores antigos.

Moradores novos.

O Bixiga real.

A festa que começara celebrando também a memória da imigração italiana havia se tornado uma maneira de mostrar aquilo que o bairro sempre foi:

uma sobreposição de muitas São Paulos.


29 de maio de 2022


Poucos meses depois daquela campanha, o Bixiga perdeu Walter Taverna.

Ele morreu na noite de 29 de maio de 2022, aos 88 anos, depois de ser internado com pneumonia.

É tentador resumir Walter ao bolo.

Seria injusto.

Ele ajudou a trazer novamente para as ruas a Festa de Nossa Senhora Achiropita.

Foi um dos fundadores do bloco carnavalesco Esfarrapados.

Participou da criação da Feira de Antiguidades da Praça Dom Orione.

Lutou pela preservação do Bixiga diante da especulação imobiliária.

Defendeu a Vila Itororó.

Participou das batalhas pela preservação dos Arcos do Bixiga.

Até fora do bairro se envolveu com a preservação da Casa Modernista.

E durante décadas comandou a Cantina Conchetta, onde bater duas enormes tampas de panela podia ser suficiente para transformar um jantar em festa.

Walter era, antes de tudo, um desses personagens raros que parecem acreditar que uma cidade precisa de gente disposta a cuidar das coisas que não pertencem exatamente a ninguém.

Uma praça.

Uma festa.

Uma casa antiga.

Um bloco.


Um bolo.

O último pedaço de Armandinho


Há ainda uma imagem muito bonita na história de Walter.

Armandinho havia morrido em 1994.

Segundo a memória familiar, depois de sua morte, a filha de Armandinho entregou simbolicamente a responsabilidade do bolo a Walter.

Ele cuidou dela por quase três décadas.

Mas Walter havia feito algo fundamental antes de partir.

Não guardou a tradição só para si.

Enquanto envelhecia, Thaís já estava organizando.

Nádia Garcia estava mobilizando.

Moradores estavam fazendo bolo.

Comerciantes estavam ajudando.

Músicos estavam tocando.

Instituições estavam participando.

A nova estrutura não precisava mais de uma pessoa capaz de levantar sozinha 450 metros de bolo.

Precisava de uma rede.

Talvez essa tenha sido a maior transformação de todas.


2023 — desta vez, o silêncio era luto


Chegou janeiro de 2023.

A pandemia começava a permitir a retomada de muitas festas presenciais.

Seria natural que o bolo voltasse.

Não voltou.

Desta vez não foi por falta de patrocinador.

Não foi por uma guerra de comida.

Não foi por restrição sanitária.

A comunidade decidiu não realizar a comemoração porque ainda estava abalada com a morte de Walter.

São Paulo completou 469 anos.

E a Rua Rui Barbosa ficou novamente sem sua grande mesa.

Mas havia uma diferença enorme em relação a 2009.

Naquela primeira interrupção, existia uma pergunta:

Será que o bolo acabou?

Em 2023, a pergunta era outra:


Como fazer o bolo continuar sem Walter?

Talvez Walter já tivesse respondido


Podemos imaginar uma última conversa que nunca aconteceu exatamente assim.

Thaís olha para o avô.

— E quando você não estiver aqui?

Walter talvez dê de ombros.

Olha para a rua.

Uma mulher está chegando com uma assadeira.

Depois aparece outra.

Um comerciante carrega duas caixas.

Nádia organiza alguma coisa mais adiante.

Voluntários ajeitam a mesa.

Músicos testam os instrumentos.

Crianças esperam.

— Olha em volta.

Talvez essa fosse a resposta.

Porque a grande descoberta daqueles anos não foi uma nova receita.

Foi perceber que o Bolo do Bixiga nunca tinha sido realmente um bolo.

O bolo de Armandinho desaparecia quando era comido.

O de Walter desaparecia em quatro segundos.

O industrial desapareceu quando os patrocinadores foram embora.

O de 2021 nem chegou a sair do forno.

Em 2022 virou alimento para quem precisava.

E em 2023 nem foi feito.

Mesmo assim, a tradição continuou existindo.

Porque ela estava em Áurea chegando com a filha.

Em Nádia fazendo a convocação.

Nos músicos.

Na Vai-Vai.

Na Achiropita.

Nos comerciantes.

Nos movimentos do bairro.

Nos moradores que nunca haviam trocado uma palavra e, de repente, apareciam carregando uma assadeira.

Em Thaís aprendendo a organizar enquanto o avô ainda estava ao lado.

E em Walter, que primeiro ajudou Armandinho a colocar mesas na rua e depois teve inteligência suficiente para permitir que outras pessoas começassem a carregá-las.

Quando já não era possível colocar um bolo na rua, descobriram que a tradição nunca tinha sido realmente o bolo.

Eram as pessoas.

No ano seguinte, elas voltariam.

Sem Armandinho.

Sem Walter.

Sem fábrica.

Sem treze mil ovos.

Mas com uma ambição que o Bixiga nunca perdeu:

colocar novamente uma mesa no meio da Rua Rui Barbosa e ver até onde ela conseguiria chegar.


Continua no Capítulo 5 — 470 anos. E o bolo volta para casa.



Chapter 4 — A Cake That Survived Even When It Couldn’t Take to the Streets


The Community Revival, the Pandemic, and Walter Taverna


For many years, all you had to do was walk down Rua Rui Barbosa on January 25 to know how old São Paulo was.

No calendar required.

No math necessary.

You just had to look at the table.

450 years.

450 meters.

451 years.

451 meters.

452 years.

452 meters.

Until 2008.

Then came 2009.

São Paulo turned 455.

And the table was gone.

In place of the 455 meters of cake that should have stretched across the Bixiga neighborhood, there was an artwork painted on the pavement.

It was a solution that was funny and sad at the same time.

The cake was still there.

But only as a drawing.

There was no flour.

No filling.

No frosting.

No one could attack it.

No one could take a piece home.

After decades in which the challenge had been getting the cake to survive for more than four seconds, Bixiga now faced an entirely different problem:

How do you make the tradition itself survive?


The Cake Went to Sleep. The Party Didn’t.


It is often said that the Bixiga Birthday Cake disappeared for eight years, between 2009 and 2016.

That is true if we are talking about the great community cake spread across tables along Rua Rui Barbosa.

But it does not mean that Bixiga simply closed its doors every January and forgot about São Paulo’s birthday.

The story was messier than that.

And more interesting.

After the sponsors pulled out, producing an industrial cake hundreds of meters long became impossible.

But the party still had an audience.

It still had Walter.

It still had artists.

Shopkeepers.

Residents.

Memory.

In the years that followed, there were concerts, cultural performances, and different attempts to preserve some form of celebration. In some editions, visitors received individually wrapped, industrially produced little cakes.

It was practically the opposite of the old attack.

Before:

thousands of people facing hundreds of meters of cake.

Now:

one little cake.

One package.

One person.

Organized.

Hygienic.

Predictable.

No elbows.

No cooking pots.

No one showing up with a dustpan to carry dessert home.

By any rational standard, it was a better system.

By Bixiga standards...

something was missing.

The cake had survived.

The ritual had not.


Walter Still Wanted the Street


Walter Taverna never gave up on that image.

The tables.

The homemade cakes.

Neighbors arriving one by one.

Frosting that was never perfectly uniform.

A chocolate cake touching an orange cake.

Then coconut.

Then another one whose recipe nobody bothered to ask about.

One enormous cake that existed only because hundreds of smaller cakes had decided to stand together.

That, after all, was how the tradition had begun.

Long before the tons of flour.

Before SENAI.

Before the trucks.

Before the sponsors.

Before the records.

When the revival finally began, Walter himself recalled that for years he had been thinking about how the community could help bring that format back.

Perhaps it was time to admit something.

The cake had grown so enormous that it had become dependent on companies in order to exist.

When the companies left, it seemed as though the tradition had died.

But Armandinho had never started with companies.

He had started by knocking on doors.

Maybe the solution had been hiding in the past all along.


At Some Point, the Granddaughter Started Carrying the Tables


It is easy to tell this story as a succession of men.

Armandinho creates it.

Armandinho dies.

Walter takes over.

Walter dies.

Thaís takes over.

But that is not what happened.

The handover from one generation to the next took place slowly.

And it happened while Walter was still there.

His granddaughter, filmmaker and cultural producer Thaís Taverna, became increasingly involved in preserving both the celebration and Bixiga itself.

Recent accounts place a new wave of organizing around 2014, when Thaís and friends from the neighborhood began once again approaching residents and local businesses willing to bring cakes and rebuild the old community model.

It did not mean that the giant cake instantly reappeared that year.

It was a process.

Conversations.

Coordination.

Social media.

Word of mouth.

People persuading other people.

And along the way came an important institutional achievement.

In 2015, the Bixiga Birthday Cake Festival was officially added to the City of São Paulo’s events calendar through Municipal Law 16,144.

That did not bring back the old sponsors.

But it helped provide public infrastructure for the celebration — a stage, sound equipment, cleaning, security, and other necessities.

The cake was slowly finding its way back to the street.


“Bake a Cake and Bring It”


The idea behind the great revival was almost embarrassingly simple.

They did not need to find a company capable of baking 463 meters of cake.

They did not need to buy thirteen thousand eggs.

They did not need to produce a ton of frosting.

They needed people.

The call to action could be reduced to this:

Bake a cake at home and bring it to Bixiga.

One.

Just one.

The neighborhood would take care of the rest.

The message spread through social media and through that old method that apparently never went out of fashion in Bixiga:

word of mouth.

Mammas.

Mainhas.

Manos.

Residents.

Shopkeepers.

Friends of the neighborhood.

Anyone could take part.

It was almost a recreation of that morning in the 1980s that we imagined in Chapter 1.

Except now there was Facebook.


January 25, 2017


São Paulo turned 463.

Walter was 83.

That morning, a table approximately 150 meters long was set up along Rua Rui Barbosa.

There was no sponsor paying for an industrially produced cake.

Instead, there were an estimated 300 people involved and an open invitation for every participant to bring something of their own.

And they began to arrive.

A woman carrying a cake.

Then another.

A family.

A shopkeeper.

A resident who might never have taken part in the celebration before.

Áurea Caviquioli knew the story better than most.

She had been helping assemble the cake since the 1980s.

Now she returned with her daughter, Nádia Garcia.

The two had bought ingredients to make an orange cake and were still debating whether to cover it with icing or chocolate.

It is a small story inside the larger one.

In the 1980s:

the mother helped assemble the cake.

In 2017:

mother and daughter returned together.

That was exactly what was being rebuilt.

Not a recipe.

A continuity.


The Cake Starts Growing Again


At nine in the morning, no one knew exactly how long the final cake would be.

That was part of the new system.

There was no factory to call and ask:

— How many meters are ready?

The cake now depended entirely on who showed up.

One baking tray arrived.

A little more cake.

Another.

Another half meter.

Another.

More cake.

The table filled up in front of everyone.

By the end, the cakes placed side by side formed more than 120 meters of dessert along Rua Rui Barbosa.

They were nowhere near the 463 meters Walter had dreamed of.

Much less the industrial 454 meters of 2008.

But that almost did not matter.

After years of handing out individually wrapped little cakes, there was once again a long table.

Different frostings touched one another again.

Residents had baked cakes again.

And Walter was there.

Emotional at seeing the return of a celebration he had always believed was too important to disappear.


The Most Important Rule Changed


One thing, however, did not return.

The attack.

The old simultaneous starting signal, when thousands of people rushed toward the tables, remained in the past.

Under the new system, community volunteers cut the cakes and handed the pieces out one by one.

One slice.

Then another.

Then another.

No four seconds.

No food fight.

No cake flying through the air.

The celebration had recovered its community origins without recovering the behavior that had nearly destroyed it.

And perhaps that was the real lesson of 2008.

The chaos could remain in the variety of recipes.

In the music.

In the people.

In Bixiga.

But the cake now had to end up in someone’s mouth.

Not on the ground.


Thaís Looks at the Table


Thaís Taverna once described that day in a way that explains what was happening better than any set of numbers.

She remembered the emotion of seeing both familiar neighborhood residents and people she had never even spoken to before arriving with cakes.

They had prepared something in their homes.

Carried it across the city.

And shown up simply because they believed in the celebration.

We can imagine grandfather and granddaughter standing beside the table at the end of that morning.

— We didn’t make it to 463 meters.

Walter looks at the cakes.

Chocolate.

Orange.

Coconut.

Crooked cakes.

Perfect cakes.

Professional-looking frosting.

Frosting that had clearly barely survived the journey.

He might have answered:

— People showed up.

Perhaps that was the unit of measurement they had been missing.

For years, success had been measured in meters.

Now it could be measured in people.


2018 — Now We Know It Works


The following year, no one needed to prove that it was possible anymore.

The community was summoned again to celebrate São Paulo’s 464th birthday.

The instructions remained delightfully simple:

bake a cake;

bring it to Rua Rui Barbosa;

place it alongside the others.

Sources from that year already describe Thaís as clearly leading the celebration, while Walter remained its great living memory and point of reference. Producer Nádia Garcia also appears among the important figures in this community reconstruction.

That is fundamental to understanding the story.

Thaís did not inherit the cake in 2022.

She was already organizing it alongside her grandfather.

The tradition was passed down while Walter was still alive.

Without ceremony.

Probably between phone calls, meetings, cakes, tables being assembled, and last-minute problems.


2019 — 150 Meters and Two Thousand People


In 2019, São Paulo turned 465.

What had looked like an experiment in 2017 was once again beginning to feel like a tradition.

Approximately 150 meters of cakes were assembled.

The crowd was estimated at two thousand people.

Mayor Bruno Covas attended.

Onstage were Língua de Trapo, Bateria 013, SamBV, and Acabocaria.

And the description used by Portal do Bixiga was significant:

the cake was now “produced by the community itself.”

That changed everything.

Before, the question had been:

Who makes the Bixiga Birthday Cake?

Now the answer was:

Whoever shows up.


2020 — “You Make the Cake”


The invitation for 2020 stated it plainly:

You make the cake.

São Paulo was about to turn 466.

Alongside the cakes brought by residents, the celebration would feature an exhibition of professionally decorated cakes inspired by the city, a book exchange at the Fusca Literário, and a musical program deeply connected to the neighborhood.

Oswaldinho da Cuíca.

Thobias da Vai-Vai.

Bateria 013.

Orquestra Brasileira de Música Jamaicana.

Musicians from Bixiga’s samba scene.

The relationship with Vai-Vai — which at the beginning of this series we treated carefully so as not to attribute an institutional role in the cake’s creation without documentary evidence — now appears much more clearly in the contemporary celebration.

The cake had become a platform for celebrating the neighborhood itself.

And then the world stopped.


2021 — An Empty Rua Rui Barbosa


On January 25, 2021, São Paulo turned 467.

But there was a pandemic.

Covid-19 had transformed the very things that made the Bixiga Birthday Cake possible — people together, shared food, a crowd packed into the same street — into something dangerous.

There was no way to adapt the attack.

There was no way to simply move the tables a little farther apart.

The essence of the celebration was an gathering.

The decision was:

do not put the cake on the street.

After everything Bixiga had survived, the phrase sounded familiar.

Once again, the tradition had to discover how to exist without its physical form.

This time, however, the “virtual cake” would actually be virtual.

The community asked people to send short videos wishing São Paulo a happy birthday.

The symbolic target once again followed the city’s age.

They collected 467 videos, sent from different cities, states, and even from outside Brazil.

The principle remained exactly the same.

Before:

one person baked a cake.

Then another.

Then another.

Together, they created something large.

Now:

one person recorded a video.

Then another.

Then another.

467 small contributions formed a celebration.

The ingredient had changed.

The logic had not.


When We Can’t Give Cake, We Give Food


At the beginning of 2022, a return seemed possible.

São Paulo would turn 468.

But rising Covid-19 cases and an influenza outbreak once again made a street party of that size unsafe.

This time, however, a different question emerged.

If we cannot make food for a party...

why not use that same mobilization to feed people who need it?

The cake was replaced by a campaign against hunger.

The target was enormous and deliberately symbolic:

468 tons of food and hygiene products.

One ton for every year of São Paulo’s history.

We have not found reliable documentation showing that the target was actually reached — so it should be treated as a goal, not a result.

But perhaps more important than the number is who stood behind the initiative.

It was not simply “the Taverna family.”

It was the Rede Social Bela Vista.

Residents.

Shopkeepers.

Museu Memória do Bixiga.

Paróquia Nossa Senhora Achiropita.

Comunidade Evangélica do Bixiga.

Movimento Sem Teto do Centro.

Casa de Capoeira Mestre Ananias.

Other neighborhood organizations and residents.

Collection points were established throughout the area.

Now Achiropita — whose participation in the creation of the cake we could not document in Chapter 1 — appears clearly as part of the network keeping its spirit alive decades later.

Thaís summarized the logic of that network:

the neighborhood could be diverse, but it knew how to move together.


The Cake Had Never Been Just Italian


Perhaps this is where the transformation that began with Armandinho becomes most visible.

At the beginning of the story, we meet the Italian mammas.

Now we find:

mammas.

Mainhas.

Manos.

Samba musicians.

Catholics.

Evangelicals.

Capoeira practitioners.

Housing movements.

Shopkeepers.

Artists.

Longtime residents.

New residents.

The real Bixiga.

The celebration that had begun partly as an expression of Italian immigrant memory had become a way of revealing what the neighborhood had always been:

many different São Paulos layered on top of one another.


May 29, 2022


A few months after that campaign, Bixiga lost Walter Taverna.

He died on the night of May 29, 2022, at the age of 88, after being hospitalized with pneumonia.

It is tempting to reduce Walter to the cake.

That would be unfair.

He helped bring the Festa de Nossa Senhora Achiropita back to the streets.

He was one of the founders of the Esfarrapados carnival bloco.

He helped create the antiques fair at Praça Dom Orione.

He fought to preserve Bixiga against real-estate speculation.

He defended Vila Itororó.

He took part in campaigns to preserve the Arcos do Bixiga.

Even beyond the neighborhood, he became involved in efforts to preserve the Casa Modernista.

And for decades he ran Cantina Conchetta, where banging two enormous pot lids together could be enough to turn dinner into a party.

Walter was, above all, one of those rare characters who seem to believe that a city needs people willing to take care of things that do not quite belong to anyone.

A square.

A festival.

An old house.

A carnival bloco.

A cake.

Armandinho’s Last Slice

There is another beautiful image in Walter’s story.

Armandinho had died in 1994.

According to family memory, after his death, Armandinho’s daughter symbolically entrusted responsibility for the cake to Walter.

He looked after it for nearly three decades.

But Walter had done something essential before he left.

He did not keep the tradition to himself.

As he grew older, Thaís was already organizing.

Nádia Garcia was mobilizing people.

Residents were baking.

Shopkeepers were helping.

Musicians were playing.

Institutions were taking part.

The new structure no longer needed one person capable of single-handedly putting together 450 meters of cake.

It needed a network.

Perhaps that was the greatest transformation of all.


2023 — This Time, the Silence Was Grief


Then came January 2023.

The pandemic was beginning to allow many in-person celebrations to return.

It would have been natural for the cake to come back.

It did not.

This time, it was not because there was no sponsor.

It was not because of a food fight.

It was not because of health restrictions.

The community decided not to hold the celebration because it was still grieving Walter’s death.

São Paulo turned 469.

And Rua Rui Barbosa was once again without its long table.

But there was an enormous difference from 2009.

During that first interruption, the question had been:

Is the cake over?

In 2023, the question was different:

How do we keep the cake alive without Walter?


Perhaps Walter Had Already Answered


We can imagine one final conversation that never happened exactly this way.

Thaís looks at her grandfather.

— And when you’re no longer here?

Walter might shrug.

He looks toward the street.

A woman is arriving with a baking tray.

Then another appears.

A shopkeeper carries two boxes.

Farther down, Nádia is organizing something.

Volunteers straighten the table.

Musicians test their instruments.

Children wait.

— Look around.

Perhaps that was the answer.

Because the great discovery of those years was not a new recipe.

It was realizing that the Bixiga Birthday Cake had never really been a cake.

Armandinho’s cake disappeared when people ate it.

Walter’s disappeared in four seconds.

The industrial cake disappeared when the sponsors left.

The 2021 cake never even made it into an oven.

In 2022, it became food for people who needed it.

And in 2023, it was not made at all.

Yet the tradition continued to exist.

Because it was there in Áurea arriving with her daughter.

In Nádia calling people together.

In the musicians.

In Vai-Vai.

In Achiropita.

In the shopkeepers.

In the neighborhood movements.

In residents who had never exchanged a word before and suddenly appeared carrying a baking tray.

In Thaís learning how to organize the celebration while her grandfather was still beside her.

And in Walter, who first helped Armandinho put tables in the street and then had the wisdom to let other people begin carrying them.

When it was no longer possible to put a cake in the street, they discovered that the tradition had never really been the cake.

It was the people.

The following year, they would return.

Without Armandinho.

Without Walter.

Without a factory.

Without thirteen thousand eggs.

But with an ambition Bixiga had never lost:

to put a table in the middle of Rua Rui Barbosa once again and see just how far it could go.


Continued in Chapter 5 — 470 Years. And the Cake Comes Home.



Capítulo 4 — Un pastel que sobrevivió incluso cuando no podía salir a la calle


El regreso comunitario, la pandemia y Walter Taverna


Durante muchos años, bastaba con llegar a la Rua Rui Barbosa el 25 de enero para saber cuántos años tenía São Paulo.

No hacía falta un calendario.

Ni hacer cuentas.

Bastaba con mirar la mesa.

450 años.

450 metros.

451 años.

451 metros.

452 años.

452 metros.

Hasta 2008.

Entonces llegó 2009.

São Paulo cumplió 455 años.

Y la mesa ya no estaba.

En el lugar de los 455 metros de pastel que deberían haber atravesado el Bixiga, había una intervención artística pintada sobre el asfalto.

Era una solución divertida y triste al mismo tiempo.

El pastel seguía allí.

Pero solamente como dibujo.

No tenía harina.

No tenía relleno.

No tenía cobertura.

Nadie podía atacarlo.

Nadie podía llevarse un pedazo a casa.

Después de décadas en las que el problema había sido conseguir que el pastel sobreviviera más de cuatro segundos, el Bixiga se enfrentaba a una situación nueva:

¿cómo hacer que sobreviviera la propia tradición?


El pastel se durmió. La fiesta, no.


Es común encontrar la afirmación de que el Pastel del Bixiga estuvo ocho años sin realizarse, entre 2009 y 2016.

Es correcta si estamos hablando del gran pastel comunitario colocado sobre mesas en la Rua Rui Barbosa.

Pero eso no significa que el Bixiga simplemente cerrara sus puertas cada enero y se olvidara del aniversario de São Paulo.

La historia fue más confusa.

Y más interesante.

Después de la pérdida de los patrocinadores, se volvió imposible seguir produciendo aquel pastel industrial de cientos de metros.

Sin embargo, la fiesta todavía tenía público.

Tenía a Walter.

Tenía artistas.

Tenía comerciantes.

Tenía vecinos.

Tenía memoria.

Durante los años siguientes hubo conciertos, presentaciones culturales y diferentes intentos de mantener algún tipo de celebración. En algunas ediciones, quienes asistían recibían pequeños pasteles industriales empaquetados individualmente.

Era prácticamente lo contrario del antiguo ataque.

Antes:

miles de personas frente a cientos de metros de pastel.

Ahora:

un pastelito.

Un paquete.

Una persona.

Ordenado.

Higiénico.

Previsible.

Sin codazos.

Sin ollas.

Sin nadie apareciendo con una pala recogedora para transportar el postre.

Según cualquier criterio racional, era un sistema mejor.

Según los criterios del Bixiga...

faltaba algo.

El pastel había sobrevivido.

El ritual había desaparecido.


Walter todavía quería la calle


Walter Taverna nunca abandonó aquella imagen.

Las mesas.

Los pasteles caseros.

Los vecinos llegando poco a poco.

Coberturas que nunca eran perfectamente uniformes.

Un pastel de chocolate junto a uno de naranja.

Después uno de coco.

Después otro cuya receta nadie preguntaba.

Un gran pastel que solo existía porque cientos de pequeños pasteles habían decidido permanecer juntos.

Así era, precisamente, como había comenzado la tradición.

Mucho antes de las toneladas de harina.

Antes del SENAI.

Antes de los camiones.

Antes de los patrocinadores.

Antes de los récords.

El propio Walter contó, durante el proceso de recuperación, que llevaba algunos años pensando que la comunidad podía ayudar a recuperar aquel formato.

Tal vez había llegado el momento de admitir algo.

El pastel había crecido tanto que se había vuelto dependiente de las empresas para existir.

Cuando las empresas se fueron, parecía que la tradición había muerto.

Pero Armandinho nunca había comenzado con empresas.

Había comenzado llamando de puerta en puerta.

Quizás la solución había estado escondida todo el tiempo precisamente en el pasado.


En algún momento, la nieta empezó a cargar las mesas


Es fácil contar esta historia como una sucesión de hombres.

Armandinho crea.

Armandinho muere.

Walter asume.

Walter muere.

Thaís asume.

Pero no fue así.

El paso de una generación a otra ocurrió lentamente.

Y ocurrió cuando Walter todavía estaba allí.

Su nieta, Thaís Taverna, cineasta y productora cultural, fue involucrándose cada vez más en la preservación de la fiesta y del propio Bixiga.

Fuentes recientes sitúan alrededor de 2014 una nueva movilización organizada por Thaís y amigos del barrio. Empezaron nuevamente a buscar vecinos y comerciantes dispuestos a llevar pasteles y reconstruir la lógica comunitaria.

Eso no significa que aquel año reapareciera instantáneamente el gran pastel tal como se vería después.

Fue un proceso.

Conversaciones.

Articulación.

Redes sociales.

El boca a boca.

Personas convenciendo a otras personas.

Y en medio de ese proceso hubo una conquista institucional importante.

En 2015, la Festa do Bolo do Bixiga entró oficialmente en el calendario de eventos de la ciudad de São Paulo, mediante la Ley Municipal 16.144.

Eso no devolvía a los antiguos patrocinadores.

Pero ayudaba con la infraestructura pública necesaria para la fiesta: escenario, sonido, limpieza, seguridad y otras necesidades.

El pastel comenzaba a encontrar nuevamente el camino hacia la calle.


«Hagan un pastel y tráiganlo»


La propuesta para el gran regreso era casi desconcertante por su sencillez.

No necesitaban encontrar una empresa capaz de fabricar 463 metros.

No necesitaban comprar trece mil huevos.

No necesitaban producir una tonelada de cobertura.

Necesitaban personas.

La convocatoria podía resumirse así:

Haz un pastel en casa y llévalo al Bixiga.

Uno.

Solo uno.

El barrio se encargaría del resto.

La convocatoria circuló por las redes sociales y también mediante aquel viejo método que, aparentemente, nunca pasó de moda en el Bixiga:

el boca a boca.

Mammas.

Mainhas.

Manos.

Vecinos.

Comerciantes.

Amigos del barrio.

Cualquiera podía participar.

Era casi una reproducción de aquella mañana de los años 1980 que imaginamos en el primer capítulo.

Solo que ahora había Facebook.


25 de enero de 2017


São Paulo cumplió 463 años.

Walter tenía 83.

Aquella mañana se preparó una mesa de aproximadamente 150 metros en la Rua Rui Barbosa.

No había ningún patrocinador pagando un pastel industrial.

Había unas 300 personas involucradas y una convocatoria abierta para que cada participante llevara su contribución.

Y comenzaron a llegar.

Una mujer con un pastel.

Después otra.

Una familia.

Un comerciante.

Un vecino que quizá nunca antes había participado en la fiesta.

Áurea Caviquioli conocía aquella historia mejor que muchos.

Ayudaba a montar el pastel desde los años 1980.

Ahora regresaba acompañada de su hija, Nádia Garcia.

Las dos habían comprado ingredientes para preparar un pastel de naranja y todavía discutían si lo cubrirían con glaseado o chocolate.

Es una pequeña historia dentro de la gran historia.

En los años 1980:

la madre ayudaba a montar el pastel.

En 2017:

madre e hija regresaban juntas.

Eso era exactamente lo que se estaba reconstruyendo.

No una receta.

Una continuidad.


El pastel empieza a crecer otra vez


A las nueve de la mañana todavía nadie sabía cuál sería su tamaño final.

Eso formaba parte de la nueva lógica.

Nadie podía llamar a una fábrica y preguntar:

— ¿Cuántos metros están listos?

El pastel ahora dependía de quién apareciera.

Llegaba una bandeja.

Un poco más de pastel.

Otra.

Medio metro más.

Otra.

Más pastel.

La mesa se iba llenando delante de todos.

Al final, los pasteles colocados uno junto a otro formaron más de 120 metros de postre en la Rua Rui Barbosa.

No eran los 463 metros soñados por Walter.

Mucho menos los 454 metros industriales de 2008.

Pero casi no importaba.

Después de años repartiendo pastelitos empaquetados, volvía a existir una gran mesa.

Volvían a encontrarse coberturas diferentes.

Volvía a haber pasteles preparados por los vecinos.

Y estaba Walter.

Emocionado ante el regreso de una fiesta que consideraba demasiado importante para desaparecer.


La regla más importante cambió


Sin embargo, hubo algo que no regresó.

El ataque.

La antigua salida simultánea, con miles de personas abalanzándose sobre las mesas, quedó en el pasado.

En el nuevo formato, voluntarios de la propia comunidad cortaban los pasteles y entregaban los pedazos de mano en mano.

Un pedazo.

Después otro.

Después otro.

Nada de cuatro segundos.

Nada de guerra.

Nada de pastel volando.

La fiesta había recuperado sus orígenes comunitarios sin recuperar el comportamiento que casi la había destruido.

Y quizás esa haya sido la verdadera lección de 2008.

El caos podía continuar en la variedad de las recetas.

En la música.

En las personas.

En el Bixiga.

Pero el pastel ahora tenía que terminar en la boca.

No en el suelo.


Thaís mira la mesa


Hay un testimonio de Thaís Taverna sobre aquel día que explica mejor que cualquier cifra lo que estaba ocurriendo.

Contó la emoción de ver llegar tanto a vecinos conocidos como a personas con las que jamás había hablado.

Habían preparado algo en sus casas.

Lo habían transportado por la ciudad.

Y habían aparecido allí simplemente porque creían en la fiesta.

Podemos imaginar al abuelo y a la nieta frente a la mesa al final de aquella mañana.

— No llegamos a los 463 metros.

Walter observa los pasteles.

Chocolate.

Naranja.

Coco.

Pasteles torcidos.

Pasteles perfectos.

Coberturas profesionales.

Coberturas que claramente habían sobrevivido con dificultad al viaje.

Podría haber respondido:

— Llegó la gente.

Quizás esa era la unidad de medida que faltaba.

Durante años habían medido el éxito en metros.

Ahora podían medirlo en personas.


2018 — Ahora sabemos que funciona


Al año siguiente, nadie necesitaba demostrar que era posible.

La comunidad volvió a ser convocada para celebrar los 464 años de São Paulo.

La orientación continuaba siendo deliciosamente sencilla:

haz un pastel;

llévalo a la Rua Rui Barbosa;

colócalo junto a los demás.

Las fuentes de aquel año ya muestran a Thaís claramente al frente de la celebración, mientras Walter permanecía como la gran memoria viva y referencia del evento. La productora Nádia Garcia también aparece entre las personas importantes de esta reconstrucción comunitaria.

Esto es fundamental para comprender la historia.

Thaís no heredó el pastel en 2022.

Ya lo estaba organizando junto a su abuelo.

La tradición pasó de una generación a otra mientras Walter todavía estaba vivo.

Sin ceremonia.

Probablemente entre llamadas telefónicas, reuniones, pasteles, montaje de mesas y problemas de última hora.


2019 — 150 metros y dos mil personas


En 2019, São Paulo cumplió 465 años.

Aquella experiencia que en 2017 parecía un rescate ya estaba adquiriendo nuevamente aspecto de tradición.

Se reunieron aproximadamente 150 metros de pasteles.

El público fue estimado en dos mil personas.

El alcalde Bruno Covas estuvo presente.

En el escenario actuaron Língua de Trapo, Bateria 013, SamBV y Acabocaria.

Y la definición utilizada por el propio Portal do Bixiga era significativa:

el pastel ahora era «producido por la propia comunidad».

Eso lo cambiaba todo.

Antes, la pregunta era:

¿Quién fabrica el Pastel del Bixiga?

Ahora la respuesta era:

quien aparezca.

2020 — «El pastel lo haces tú»

La invitación de 2020 lo decía literalmente:

El pastel lo haces tú.

São Paulo cumpliría 466 años.

Además de los pasteles llevados por los vecinos, la fiesta tendría una exposición de pasteles decorados por profesionales con el tema de la ciudad, intercambio de libros en el Fusca Literário y una programación musical profundamente vinculada al barrio.

Oswaldinho da Cuíca.

Thobias da Vai-Vai.

Bateria 013.

Orquestra Brasileira de Música Jamaicana.

Diversos músicos del samba del Bixiga.

La relación con Vai-Vai —que al comienzo de esta serie tratamos con cuidado para no atribuirle a la escuela una participación institucional en la creación del pastel sin pruebas documentales— ahora aparece mucho más claramente en la programación contemporánea.

El pastel se había convertido en una plataforma para celebrar al propio barrio.

Y entonces el mundo se detuvo.


2021 — Una Rua Rui Barbosa vacía


El 25 de enero de 2021, São Paulo cumplió 467 años.

Pero había una pandemia.

La Covid-19 había transformado precisamente aquello que hacía posible el Pastel del Bixiga —personas reunidas, comida compartida, una multitud en la misma calle— en algo peligroso.

No había forma de adaptar el ataque.

No bastaba con separar un poco las mesas.

La propia esencia de la fiesta era una aglomeración.

La decisión fue:

no poner el pastel en la calle.

Después de todo lo que el Bixiga había atravesado, la frase resultaba familiar.

Una vez más, la tradición necesitaba descubrir cómo existir sin su forma física.

Esta vez el «pastel virtual» sería realmente virtual.

La comunidad pidió que las personas enviaran pequeños videos felicitando a São Paulo por su aniversario.

La meta simbólica volvía a seguir la edad de la ciudad.

Se reunieron 467 videos, enviados desde diferentes ciudades, estados e incluso desde fuera de Brasil.

El principio seguía siendo el mismo.

Antes:

una persona hacía un pastel.

Después otra.

Después otra.

Juntos formaban algo grande.

Ahora:

una persona grababa un video.

Después otra.

Después otra.

467 pequeñas contribuciones formaban una fiesta.

El ingrediente había cambiado.

La lógica, no.


Cuando no podemos dar pastel, damos comida


A comienzos de 2022 parecía posible imaginar el regreso.

São Paulo cumpliría 468 años.

Pero el aumento de los casos de Covid-19 y un brote de gripe hicieron que una fiesta callejera de aquel tamaño volviera a ser arriesgada.

Solo que esta vez surgió una pregunta diferente.

Si no podemos preparar comida para una fiesta...

¿por qué no utilizar esa movilización para quienes necesitan comida?

El pastel fue sustituido por una campaña contra el hambre.

La meta era enorme y deliberadamente simbólica:

468 toneladas de alimentos y productos de higiene.

Una tonelada por cada año de São Paulo.

No encontramos documentación fiable que demuestre que esa meta haya sido efectivamente alcanzada; por eso debe ser tratada como meta, y no como resultado.

Pero quizás más importante que la cifra sea observar quién estaba detrás de la iniciativa.

No era «la familia Taverna».

Era la Rede Social Bela Vista.

Vecinos.

Comerciantes.

Museu Memória do Bixiga.

Paróquia Nossa Senhora Achiropita.

Comunidade Evangélica do Bixiga.

Movimento Sem Teto do Centro.

Casa de Capoeira Mestre Ananias.

Otras organizaciones y habitantes del barrio.

Los puntos de recogida se distribuyeron por toda la zona.

Ahora Achiropita —cuya participación en la creación del pastel no pudimos demostrar en el primer capítulo— aparece documentalmente integrada en la red que mantiene vivo su espíritu décadas después.

Thaís resumió la lógica de aquella articulación:

el barrio podía ser múltiple, pero sabía caminar unido.


El pastel nunca había sido solamente italiano


Quizás sea en este momento cuando la transformación iniciada por Armandinho se vuelve más evidente.

Al comienzo de la historia aparecen las mammas italianas.

Ahora aparecen:

Mammas.

Mainhas.

Manos.

Sambistas.

Católicos.

Evangélicos.

Capoeiristas.

Movimientos por la vivienda.

Comerciantes.

Artistas.

Vecinos de toda la vida.

Vecinos nuevos.

El Bixiga real.

La fiesta que había comenzado celebrando también la memoria de la inmigración italiana se había convertido en una forma de mostrar aquello que el barrio siempre había sido:

una superposición de muchas São Paulos.


29 de mayo de 2022


Pocos meses después de aquella campaña, el Bixiga perdió a Walter Taverna.

Murió la noche del 29 de mayo de 2022, a los 88 años, después de haber sido hospitalizado con neumonía.

Es tentador resumir a Walter en el pastel.

Sería injusto.

Ayudó a devolver a las calles la Festa de Nossa Senhora Achiropita.

Fue uno de los fundadores del bloco de carnaval Esfarrapados.

Participó en la creación de la Feria de Antigüedades de la Praça Dom Orione.

Luchó por la preservación del Bixiga frente a la especulación inmobiliaria.

Defendió la Vila Itororó.

Participó en las luchas por la conservación de los Arcos do Bixiga.

Incluso fuera del barrio se involucró en la preservación de la Casa Modernista.

Y durante décadas estuvo al frente de la Cantina Conchetta, donde golpear dos enormes tapas de olla podía bastar para transformar una cena en una fiesta.

Walter era, ante todo, uno de esos personajes poco comunes que parecen creer que una ciudad necesita personas dispuestas a cuidar de las cosas que no pertenecen exactamente a nadie.

Una plaza.

Una fiesta.

Una casa antigua.

Un bloco.

Un pastel.


El último pedazo de Armandinho


Hay todavía una imagen muy hermosa en la historia de Walter.

Armandinho había muerto en 1994.

Según la memoria familiar, después de su muerte, la hija de Armandinho entregó simbólicamente a Walter la responsabilidad del pastel.

Él cuidó de ella durante casi tres décadas.

Pero Walter había hecho algo fundamental antes de partir.

No guardó la tradición solamente para sí.

Mientras envejecía, Thaís ya estaba organizando.

Nádia Garcia estaba movilizando.

Los vecinos estaban haciendo pasteles.

Los comerciantes estaban ayudando.

Los músicos estaban tocando.

Las instituciones estaban participando.

La nueva estructura ya no necesitaba a una sola persona capaz de levantar por sí misma 450 metros de pastel.

Necesitaba una red.

Quizás esa haya sido la mayor transformación de todas.


2023 — Esta vez, el silencio era luto


Llegó enero de 2023.

La pandemia empezaba a permitir el regreso de muchas celebraciones presenciales.

Habría sido natural que el pastel volviera.

No volvió.

Esta vez no fue por falta de patrocinadores.

No fue por una guerra de comida.

No fue por restricciones sanitarias.

La comunidad decidió no realizar la celebración porque todavía estaba afectada por la muerte de Walter.

São Paulo cumplió 469 años.

Y la Rua Rui Barbosa volvió a quedarse sin su gran mesa.

Pero existía una diferencia enorme respecto a 2009.

En aquella primera interrupción, había una pregunta:

¿Se acabó el pastel?

En 2023, la pregunta era otra:

¿Cómo hacer que el pastel continúe sin Walter?


Quizás Walter ya había respondido


Podemos imaginar una última conversación que nunca ocurrió exactamente de esta manera.

Thaís mira a su abuelo.

— ¿Y cuando tú ya no estés aquí?

Walter quizás se encoja de hombros.

Mira hacia la calle.

Una mujer está llegando con una bandeja.

Después aparece otra.

Un comerciante carga dos cajas.

Más adelante, Nádia organiza alguna cosa.

Los voluntarios acomodan la mesa.

Los músicos prueban sus instrumentos.

Los niños esperan.

— Mira a tu alrededor.

Quizás esa fuera la respuesta.

Porque el gran descubrimiento de aquellos años no fue una nueva receta.

Fue comprender que el Pastel del Bixiga nunca había sido realmente un pastel.

El pastel de Armandinho desaparecía cuando se lo comían.

El de Walter desaparecía en cuatro segundos.

El pastel industrial desapareció cuando se fueron los patrocinadores.

El de 2021 ni siquiera llegó a entrar en un horno.

En 2022 se convirtió en alimentos para quienes los necesitaban.

Y en 2023 ni siquiera se hizo.

Aun así, la tradición siguió existiendo.

Porque estaba en Áurea llegando con su hija.

En Nádia haciendo la convocatoria.

En los músicos.

En Vai-Vai.

En Achiropita.

En los comerciantes.

En los movimientos del barrio.

En los vecinos que nunca habían intercambiado una palabra y que, de repente, aparecían cargando una bandeja.

En Thaís aprendiendo a organizar mientras su abuelo todavía estaba a su lado.

Y en Walter, que primero ayudó a Armandinho a colocar mesas en la calle y después tuvo la sabiduría suficiente para permitir que otras personas empezaran a cargarlas.

Cuando ya no era posible poner un pastel en la calle, descubrieron que la tradición nunca había sido realmente el pastel.

Eran las personas.

Al año siguiente, volverían.

Sin Armandinho.

Sin Walter.

Sin fábrica.

Sin trece mil huevos.

Pero con una ambición que el Bixiga nunca perdió:

volver a colocar una mesa en medio de la Rua Rui Barbosa y descubrir hasta dónde podría llegar.


Continúa en el Capítulo 5 — 470 años. Y el pastel vuelve a casa.

 
 
 

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