top of page
Search

Crônica: Coincidências

Updated: Jan 22

Coincidências não existem


Uma crônica sobre São Paulo, encontros e inteligência da cidade

por Victor Mendes, SP By a Local





São Paulo é enorme.


Monstruosa. Populosa.


Uma cidade que, vista de cima, parece não ter fim.


Mas, vivendo dentro dela, a verdade aparece: São Paulo não é uma cidade só. São dezenas, talvez centenas, de pequenas cidades que coexistem, se sobrepõem e se encontram nos momentos mais improváveis. E é aí que nascem as coincidências — ou o que a gente chama de coincidência quando ainda não aprendeu a ler a cidade.


Vou contar algumas histórias do trabalho.

Histórias que parecem acaso, mas não são.



Jardins, hora do almoço


Sábado, meio de tarde.


Uma corrida curta pelos Jardins. Nada de extraordinário. Entro naquele ritmo comum de conversa leve, dessas que não exigem esforço. Um casal simpático, um pouco mais velho do que eu — mas não muito. Falamos do carro, que não é tão comum nas ruas. Falamos da cidade. Eles descem, nos despedimos, sigo o dia.



Domingo.


Mesma região. Chamada aceita. Endereço: o mesmo prédio.

Quando encosto, o portão se abre e lá estão eles. O mesmo casal. Antes mesmo de entrarem no carro, já estão sorrindo. Me cumprimentam como quem reencontra um conhecido. Contam que, quando viram o carro no aplicativo, pensaram: “Não é possível”. Quando leram o nome, tiveram certeza.


No caminho, descubro mais uma camada da cidade: eu adoro o restaurante do filho deles. Frequento. Recomendo. Confio.


São Paulo faz isso. Ela dobra o espaço, encurta distâncias e cria laços invisíveis entre pessoas que, teoricamente, nunca deveriam se cruzar duas vezes.


Pinheiros, começo da noite


Volto um pouco no tempo.

Ainda na época da Uber, eu tinha um cartão preso no encosto de cabeça do banco da frente. Um hábito simples, quase ingênuo. Uma noite, pego uma passageira. Ela entra no carro sorrindo, antes mesmo de dizer boa noite.


— Não acredito.


Ela me mostra o celular. Uma foto do cartão. O mesmo cartão que estava ali, atrás da minha cabeça. A amiga dela tinha indicado “o motorista” para agendar um traslado para um show internacional. Qual show? Não lembro mais. São Paulo engole datas, nomes e cartazes. Mas guarda os encontros.

Naquele momento, a corrida deixou de ser corrida. Já era outra coisa. Era rede. Era leitura de cidade. Era entender que certos círculos se movem sempre pelos mesmos caminhos.


Madrugada, A Chapa


Essa é a minha favorita.


Uma corrida comum. Conversa vai, conversa vem. A passageira comenta que é de. Cia Norte, professora, está em São Paulo acompanhando um aluno do mestrado em moda. Ele participaria de um desfile importante. Deixo ela no hotel. Sigo.


Pouco depois, já no começo da madrugada, recebo outra chamada.

Em frente ao restaurante A Chapa. Quem conhece São Paulo sabe: moda, publicidade, arquitetura, jornalismo… todo mundo passa por ali em algum momento da noite.


O jovem entra no carro aflito.


— Moço, me ajuda. Minha amiga disse que estava na A Chapa, mas eu vim parar no restaurante errado.


Acalmo ele. Enquanto dirijo para a unidade correta, puxo conversa. Pergunto de onde ele é.


— Cia Norte


Eu sorrio por dentro. Arrisco.


— Você não veio a São Paulo para fazer um desfile, né?


Ele me olha assustado.


— Como o senhor sabe?


Não sei. Eu leio a cidade. Levei a professora dele algumas horas antes. São Paulo tinha acabado de fechar mais um círculo.


A cidade que conecta tudo


São Paulo é caótica, mas não aleatória.


Ela funciona por nichos. Pessoas da mesma faixa etária, dos mesmos interesses, acabam frequentando os mesmos sete ou oito lugares.


Dá para ser anônimo aqui, se você quiser. Mas, se você se mover dentro de um círculo, vai reencontrar as mesmas pessoas o tempo todo.


Há muito tempo, para mim, o aplicativo deixou de ser sobre valor da corrida ou distância. O que importa é outra coisa: a que círculo essa pessoa pertence.


É alguém com quem eu quero construir relação?


É alguém que faz sentido para o meu trabalho, para meu networking, para o tipo de experiência que eu acredito?


Hoje, eu escolho meus clientes usando inteligência da cidade — e a ajuda silenciosa dos aplicativos. Existe método, existe leitura, existe intenção.


Então, se você entrou no meu carro, pode até ter parecido coincidência.


Mas não foi aleatório.


E se você chegou até aqui, lendo essa crônica, talvez São Paulo já tenha começado a fazer o que ela faz de melhor: te colocar no caminho certo, na hora certa.


Eu sigo dirigindo.


Observando.


Conectando.


Victor Mendes


SP By a Local



Coincidences Don’t Exist


A chronicle about São Paulo, encounters, and city intelligence


by Victor Mendes, SP By a Local


São Paulo is huge.

Monstrous. Populous.

A city that, from above, seems endless.


But from the inside, the truth reveals itself: São Paulo is not one city. It’s dozens — maybe hundreds — of small cities coexisting, overlapping, colliding. And that’s where coincidences are born — or what we call coincidences before we learn how to read the city.


I’m going to tell you a few stories from my work. Stories that seem like chance, but aren’t.



---


Jardins, lunchtime


Saturday, early afternoon.


A short ride through Jardins. Nothing unusual.


We fall into that easy rhythm of light conversation — the kind that requires no effort. A friendly couple, a bit older than me — but not by much. We talk about the car, which isn’t very common on the streets. We talk about the city. They get out, we say goodbye, and the day moves on.


Sunday.


Same area. Ride accepted. Address: the same building.


When I pull up, the gate opens and there they are. The same couple. Before they even get in, they’re smiling. They greet me like you greet someone familiar. They tell me that when they saw the car in the app, they thought, “No way.” When they read the name, they were sure.


Along the way, I discover another layer of the city: I love their son’s restaurant. I go there. I recommend it. I trust it.


São Paulo does that. It bends space, shortens distances, and creates invisible ties between people who, in theory, should never cross paths twice.



---


Pinheiros, early evening


Let’s go back in time.


Back when I was still driving for Uber, I had a business card attached to the headrest of the front seat. A simple habit. One night, I pick up a passenger. She gets into the car smiling, before even saying hello.


“I can’t believe it.”


She shows me her phone. A photo of the card. The same card right there, behind my head. Her friend had recommended “the driver” to book a transfer for an international concert. Which concert? I don’t remember anymore. São Paulo swallows dates, names, posters. But it remembers encounters.


At that moment, the ride stopped being just a ride. It became something else. A network. City intelligence. Understanding that certain circles always move through the same paths.



---


After midnight, A Chapa


This one is my favorite.


A regular ride. Conversation flows. The passenger mentions she’s from Cia Norte, a professor, in São Paulo accompanying a master’s student in fashion. He was taking part in an important fashion show. I drop her off at the hotel and move on.


Shortly after, already past midnight, I receive another request. Outside A Chapa restaurant. Anyone who knows São Paulo knows: fashion, advertising, architecture, journalism — at some point, everyone passes through there.


A young man gets into the car, clearly anxious.


“Sir, can you help me? My friend said she was at A Chapa, but I ended up at the wrong one.”


I calm him down. As I drive to the correct location, I make small talk. I ask where he’s from.


“Cia Norte”


I smile to myself. I take a guess.


“You didn’t come to São Paulo for a fashion show, did you?”


He looks at me, stunned.


“How do you know?”


I don’t know. I read the city. I had driven his professor back to the hotel just a few hours earlier. São Paulo had just closed another circle.



---


The city that connects everything


São Paulo is chaotic, but it’s not random.

It works through niches. People of the same age group, with similar interests, end up frequenting the same seven or eight places.


You can remain anonymous here if you want. But if you move within a circle, you’ll keep running into the same people over and over again.


For a long time now, the app hasn’t been about fare value or distance for me. What matters is something else: which circle does this person belong to?


Is it someone I want to build a relationship with?

Someone who makes sense for my work, my network, the kind of experience I believe in?


Today, I choose my clients using city intelligence — with a quiet assist from the apps. There’s method. There’s observation. There’s intention.


So if you got into my car, it may have felt like a coincidence.


But it wasn’t random.


And if you’ve made it this far, reading this chronicle, maybe São Paulo has already started doing what it does best: placing you on the right path, at the right time.


I keep driving.


Observing.


Connecting.


— Victor Mendes

SP By a Local




Las coincidencias no existen


Una crónica sobre São Paulo, los encuentros y la inteligencia de la ciudad


por Victor Mendes, SP By a Local



São Paulo es enorme.


Monstruosa. Poblada.


Una ciudad que, vista desde arriba, parece no tener fin.


Pero desde dentro, la verdad se revela: São Paulo no es una sola ciudad. Son decenas — tal vez cientos — de pequeñas ciudades que coexisten, se superponen y se cruzan. Y ahí nacen las coincidencias… o lo que llamamos coincidencias antes de aprender a leer la ciudad.


Voy a contar algunas historias de mi trabajo. Historias que parecen casualidad, pero no lo son.



Jardins, hora del almuerzo


Sábado, primeras horas de la tarde.


Un trayecto corto por Jardins. Nada fuera de lo común. Entramos en ese ritmo natural de conversación ligera, de esas que no exigen esfuerzo. Una pareja simpática, un poco mayor que yo — pero no mucho. Hablamos del auto, que no es tan común en las calles. Hablamos de la ciudad. Se bajan, nos despedimos y el día sigue.


Domingo.


La misma zona. Viaje aceptado. Dirección: el mismo edificio.


Cuando llego, el portón se abre y ahí están. La misma pareja. Antes de subir, ya están sonriendo. Me saludan como quien se reencuentra con alguien conocido. Me cuentan que cuando vieron el auto en la aplicación pensaron: “No puede ser”. Cuando leyeron el nombre, lo supieron.


En el camino descubro otra capa de la ciudad: adoro el restaurante de su hijo. Voy seguido. Lo recomiendo. Confío en él.


São Paulo hace eso. Dobla el espacio, acorta distancias y crea lazos invisibles entre personas que, en teoría, nunca deberían cruzarse dos veces.


Pinheiros, inicio de la noche


Volvamos un poco en el tiempo.

En la época en que todavía trabajaba con Uber, tenía una tarjeta con mis datos fijada en el respaldo del asiento delantero. Un hábito simple. Una noche recojo a una pasajera. Entra al auto sonriendo, incluso antes de decir buenas noches.


— No lo puedo creer.


Me muestra su celular. Una foto de la tarjeta. La misma tarjeta que estaba ahí, detrás de mi cabeza. Su amiga le había recomendado “al conductor” para agendar un traslado para un concierto internacional. ¿Cuál concierto? Ya no lo recuerdo. São Paulo se traga fechas, nombres y afiches. Pero guarda los encuentros.


En ese momento, el viaje dejó de ser solo un viaje. Ya era otra cosa. Era red. Era inteligencia de ciudad. Era entender que ciertos círculos siempre recorren los mismos caminos.


Madrugada, A Chapa


Esta es mi favorita.


Un viaje común. La conversación fluye. La pasajera comenta que es de Cia Norte, profesora, y que está en São Paulo acompañando a un alumno de maestría en moda. Él participaría en un desfile muy importante. La dejo en el hotel y continúo.


Poco después, ya entrada la madrugada,

recibo otro llamado.

Frente al restaurante A Chapa. Quien conoce São Paulo lo sabe: moda, publicidad, arquitectura, periodismo… en algún momento, todos pasan por ahí.


Un joven sube al auto, visiblemente nervioso.


— Señor, ¿me ayuda? Mi amiga dijo que estaba en A Chapa, pero terminé en el restaurante equivocado.


Lo tranquilizo. Mientras lo llevo a la unidad correcta, conversamos un poco. Le pregunto de dónde es.


— Cúa Norte


Sonrío por dentro. Me arriesgo.


— Usted no vino a São Paulo para hacer un desfile, ¿verdad?


Me mira sorprendido.


— ¿Cómo lo sabe?


No lo . Leo la ciudad. Había llevado a su profesora de vuelta al hotel unas horas antes.


São Paulo acababa de cerrar otro círculo.


La ciudad que conecta todo


São Paulo es caótica, pero no es aleatoria.


Funciona por nichos. Personas de la misma franja etaria, con intereses similares, terminan frecuentando los mismos siete u ocho lugares. Es posible mantenerse anónimo aquí, si uno quiere. Pero si te mueves dentro de un círculo, vas a encontrar a las mismas personas una y otra vez.


Hace tiempo que, para mí, la aplicación dejó de ser sobre el valor del viaje o la distancia. Lo importante es otra cosa: a qué círculo pertenece esa persona.


¿Es alguien con quien quiero construir una relación?


¿Alguien que tiene sentido para mi trabajo, mi red y el tipo de experiencia en la que creo?


Hoy elijo a mis clientes usando inteligencia de la ciudad — con una ayuda silenciosa de las aplicaciones. Hay método. Hay observación. Hay intención.


Así que, si subiste a mi auto, puede haber parecido una coincidencia.


Pero no fue aleatorio.


Y si llegaste hasta aquí, leyendo esta crónica, tal vez São Paulo ya haya empezado a hacer lo que mejor sabe hacer: ponerte en el camino correcto, en el momento justo.


Sigo manejando.


Observando.


Conectando.


Victor Mendes


SP By a Local

 
 
 

Comments


bottom of page