Meet & Greet
- Victor Mendes
- Jan 8
- 10 min read
A arte de acolher

Outro dia, dentro do carro, o celular começou a vibrar.
Não era um pedido simples. Pelo contrário. Muitos trajetos, carros, vans… e um detalhe que me chamou atenção logo de cara: tanto na chegada quanto na partida havia a solicitação de levar um colaborador da empresa até o aeroporto para receber os convidados — e depois trazê-lo de volta no mesmo dia.
O trajeto de ida e volta ao aeroporto no mesmo dia sempre acende um alerta. Não é comum. Não é prático. E quase nunca é sobre logística.
Guardei o pedido, segui o caminho, e só fui sentar para fazer o orçamento quando cheguei em casa, já à noite. Era complexo demais para resolver no volante. Enquanto o celular descansava sobre a mesa, fiquei pensando no motivo daquele receptivo tão cuidadoso.
Minha primeira suposição foi óbvia: estrangeiros. Idioma. Pessoas que não conhecem São Paulo. Mas, conversando com o contato da empresa, descobri outra história. Tratava-se de uma ONG. E os convidados não eram estrangeiros. Eram todos brasileiros. Vindos de cidades pequenas, comunidades pequenas, alguns deles nunca tinham saído de seus povoados. Três nunca tinham estado em um aeroporto. Nunca tinham visto uma cidade grande de perto.
O receptivo não era por causa do idioma.
Era por causa do mundo.
Ali ficou claro algo que eu já sentia, mas talvez nunca tivesse colocado em palavras: o serviço de receptivo não é sobre língua. É sobre acolhimento.
Transportar é levar alguém do ponto A ao ponto B.
Acolher é diferente.
É apresentar o mundo pela sua visão. É emprestar, por alguns minutos, o seu olhar. É guiar alguém em um lugar novo e misterioso com cuidado, carinho e atenção. É fazer com que aquela pessoa, logo no primeiro contato, sinta que está segura. Que está sendo esperada. Que é bem-vinda.
Aquele primeiro momento importa. Importa muito. É ali que começa a relação — não só entre pessoas, mas entre aquele cliente e São Paulo. É ali que a cidade deixa de ser um nome distante e vira experiência. E, quem sabe, afeto.
Eu sempre tive muito contato com outras culturas. Viajei para muitos países, inclusive alguns pouco habituais para brasileiros, como a Nova Zelândia e Liechtenstein. Em muitos deles, vivi na pele o que é ser estrangeiro em um lugar que não fala a sua língua. Aqui no Brasil, especialmente em São Paulo, sempre houve — e ainda há — uma carência enorme de pessoas que falem outros idiomas com segurança. Durante muito tempo, a cidade simplesmente não estava preparada para receber quem vinha de fora. Melhorou, sim. Mas ainda falta muito.
Talvez por isso, durante anos, acabei ajudando amigos e colegas que recebiam estrangeiros em São Paulo. Desde o primeiro contato no aeroporto até dicas básicas de como se virar em uma cidade intensa, complexa e fascinante — mas que pode assustar quem chega pela primeira vez. O tamanho, a proporção, o ritmo. E, claro, o medo da violência, que existe, mas é localizada e não define a cidade inteira.
Esse contato com o “receber” me levou, anos atrás, ao Couchsurfing — na época ainda uma ONG. A ideia era simples: abrir o sofá para um viajante. Eu nunca abri o sofá, mas abri o tempo, a conversa, o interesse. Conheci pessoas de todos os continentes. Aprendi sobre culturas, histórias, medos e sonhos. Fui recebido com o mesmo cuidado em outras cidades e países. E isso, sem dúvida, me transformou.
Lembro de uma história na Nova Zelândia que sempre me acompanha. Entrei em uma loja apenas para pedir direções. A pessoa não apontou o caminho. Ela saiu da loja, caminhou comigo por metade do trajeto e só voltou quando teve certeza de que eu já conseguia avistar o meu destino. Aquilo não era obrigação. Era acolhimento.
Durante um período da minha vida, trabalhei como fotógrafo de viagens de incentivo, acompanhando grupos em experiências pelo mundo. Conheci profissionais que dominavam como ninguém essa arte invisível de receber. Em especial na Colômbia, onde a recepção é calorosa, cheia de afeto, atenção aos detalhes e abraços sinceros. Ali aprendi que acolher é lembrar do que o outro te contou. É ouvir antes de responder. É tratar cada chegada como única.
Esse lado talvez não esteja explícito na minha biografia. Mas ele está presente em tudo o que eu faço.
Quando penso na SP by a Local, penso exatamente nisso. Não como um serviço, mas como uma consequência natural. Nosso receptivo não é para impressionar. É para fazer com que a pessoa se sinta como em casa, mesmo longe dela. É ouvir antes de responder. É entender antes de executar. É saber que o primeiro contato é tão importante quanto o serviço em si.
Porque, no fim das contas, viajar não começa quando o carro anda.
Começa quando alguém te espera.
E acolher é isso: transformar chegada em começo.
Victor Mendes
SP by a Local
The Art of Welcoming
The other day, I was inside the car when my phone began to vibrate. It wasn’t a simple request. Quite the opposite. Multiple routes, cars, vans… and one detail immediately caught my attention: both on arrival and on departure, there was a request to take a company representative to the airport to receive the guests — and then bring them back the very same day.
A round trip to the airport on the same day is always a signal. It’s not common. It’s not practical. And it’s almost never just about logistics.
I saved the request, kept driving, and only sat down to prepare the quote later that night, once I was home. It was far too complex to handle behind the wheel. As my phone rested on the table, I kept thinking about the reason for such careful reception.
My first assumption was obvious: foreigners. Language. People unfamiliar with São Paulo. But after speaking with the company contact, another story emerged. It was an NGO. And the guests were not foreigners. They were all Brazilian. Coming from small towns, small communities — some of them had never left their hometowns. Three had never been to an airport. Never experienced a large city.
The reception wasn’t about language.
It was about the world.
That’s when something became clear — something I had long felt but perhaps never put into words: a reception service is not about language barriers. It’s about welcoming.
To transport someone is to take them from point A to point B.
To welcome is something else entirely.
It’s about presenting the world through your own perspective. It’s about lending your eyes, even briefly. It’s about guiding someone through a new and mysterious place with care, affection, and attention. It’s about making sure that, in that very first moment, the person feels safe. Expected. Welcome.
That first moment matters. A lot. That’s where a relationship begins — not just between people, but between that guest and São Paulo. That’s when the city stops being a distant name and becomes an experience. And maybe, affection.
I’ve always had close contact with other cultures. I’ve traveled to many countries, including some less common for Brazilians, such as New Zealand and Liechtenstein. In many of them, I experienced firsthand what it means to be a foreigner in a place that doesn’t speak your language. Here in Brazil — especially in São Paulo — there has long been, and still is, a huge lack of people who speak other languages confidently. For a long time, the city simply wasn’t prepared to receive outsiders. It has improved, yes. But there’s still a long way to go.
Perhaps that’s why, for years, I found myself helping friends and colleagues who were receiving foreigners in São Paulo. From the very first contact at the airport to basic guidance on how to navigate a city that is intense, complex, and fascinating — but can be overwhelming for first-time visitors. The scale. The pace. And, of course, the fear of violence, which exists but is localized and does not define the city as a whole.
This connection with “welcoming” eventually led me to Couchsurfing — back when it was still an NGO. The idea was simple: open your couch to a traveler. I never opened my couch, but I opened my time, my curiosity, my conversations. I met people from every continent. I learned about cultures, stories, fears, and dreams. I was welcomed with the same care in other cities and countries. And that, without a doubt, changed me.
There’s a story from New Zealand that I always carry with me. I walked into a shop just to ask for directions. Instead of pointing the way, the person closed the door behind them, walked with me halfway to my destination, and only turned back once they were sure I could already see where I needed to go. That wasn’t obligation. That was hospitality.
For a period of my life, I worked as a photographer for incentive travel programs, accompanying groups on journeys around the world. I met professionals who mastered this invisible art of welcoming. Especially in Colombia, where reception is warm, full of affection, attention to detail, and genuine hugs. There I learned that welcoming is about remembering what someone told you. It’s about listening before answering. It’s about treating every arrival as something unique.
That side of me may not appear explicitly in my biography. But it’s present in everything I do.
When I think about SP by a Local, I think exactly of that — not as a service, but as a natural consequence. Our reception is not meant to impress. It’s meant to make people feel at home, even when far from it.
It’s about listening before responding. Understanding before executing. Knowing that the first contact is just as important as the service itself.
Because, in the end, a journey doesn’t begin when the car starts moving.
It begins when someone is waiting for you.
And welcoming is this: turning arrival into a beginning.
Victor Mendes
SP by a Local
El arte de acoger
El otro día estaba dentro del auto cuando mi celular comenzó a vibrar. No era una solicitud sencilla. Todo lo contrario. Varios trayectos, autos, vans… y un detalle llamó mi atención de inmediato: tanto a la llegada como a la salida, había una solicitud para llevar a un colaborador de la empresa al aeropuerto para recibir a los invitados — y luego traerlo de regreso el mismo día.
Un viaje de ida y vuelta al aeropuerto en el mismo día siempre es una señal. No es común. No es práctico. Y casi nunca se trata solo de logística.
Guardé la solicitud, seguí conduciendo y solo me senté a preparar el presupuesto cuando llegué a casa, ya de noche. Era demasiado complejo para resolverlo al volante. Mientras el celular descansaba sobre la mesa, pensé en el motivo de una recepción tan cuidadosa.
Mi primera suposición fue obvia: extranjeros. Idioma. Personas que no conocen São Paulo.
Pero al hablar con el contacto de la empresa, surgió otra historia. Se trataba de una ONG. Y los invitados no eran extranjeros. Todos eran brasileños. Venían de ciudades pequeñas, comunidades pequeñas — algunos nunca habían salido de sus pueblos. Tres de ellos nunca habían estado en un aeropuerto. Nunca habían conocido una gran ciudad.
La recepción no era por el idioma.
Era por el mundo.
Ahí quedó claro algo que yo ya sentía, pero que quizás nunca había puesto en palabras: el servicio de recepción no trata de barreras lingüísticas. Trata de acoger.
Transportar es llevar a alguien del punto A al punto B.
Acoger es otra cosa.
Es presentar el mundo desde tu propia mirada. Es prestar tus ojos, aunque sea por un momento. Es guiar a alguien por un lugar nuevo y misterioso con cuidado, cariño y atención. Es hacer que, en ese primer instante, la persona se sienta segura. Esperada. Bienvenida.
Ese primer momento importa. Mucho. Es ahí donde comienza la relación — no solo entre personas, sino entre ese visitante y São Paulo. Es cuando la ciudad deja de ser un nombre distante y se convierte en experiencia. Y, quizás, en afecto.
Siempre he tenido un contacto muy cercano con otras culturas. He viajado a muchos países, incluso a algunos poco habituales para los brasileños, como Nueva Zelanda y Liechtenstein. En muchos de ellos viví en carne propia lo que significa ser extranjero en un lugar que no habla tu idioma. Aquí en Brasil — especialmente en São Paulo — durante mucho tiempo, y aún hoy, existe una gran carencia de personas que hablen otros idiomas con seguridad. Durante años, la ciudad simplemente no estaba preparada para recibir a quien venía de fuera. Ha mejorado, sí. Pero todavía falta mucho.
Tal vez por eso, durante años terminé ayudando a amigos y colegas que recibían extranjeros en São Paulo. Desde el primer contacto en el aeropuerto hasta consejos básicos para moverse en una ciudad intensa, compleja y fascinante — pero que puede asustar a quien llega por primera vez. El tamaño. El ritmo. Y, por supuesto, el miedo a la violencia, que existe, pero es localizada y no define a la ciudad en su totalidad.
Ese vínculo con el acto de acoger me llevó, hace algunos años, a Couchsurfing — cuando aún era una ONG. La idea era simple: abrir tu sofá a un viajero. Yo nunca abrí mi sofá, pero abrí mi tiempo, mis conversaciones y mi curiosidad. Conocí personas de todos los continentes. Aprendí sobre culturas, historias, miedos y sueños. Y fui recibido con el mismo cuidado en otras ciudades y países. Sin duda, eso me transformó.
Hay una historia de Nueva Zelanda que siempre me acompaña. Entré a una tienda solo para pedir indicaciones. La persona no señaló el camino. Salió de la tienda, caminó conmigo hasta la mitad del trayecto y solo regresó cuando tuvo la certeza de que yo ya podía ver mi destino. Eso no era una obligación. Era hospitalidad.
Durante un período de mi vida trabajé como fotógrafo de viajes de incentivo, acompañando grupos en recorridos por el mundo. Conocí profesionales que dominaban como nadie este arte invisible de acoger. Especialmente en Colombia, donde la recepción es cálida, llena de afecto, atención a los detalles y abrazos sinceros. Allí aprendí que acoger es recordar lo que el otro te contó. Es escuchar antes de responder. Es tratar cada llegada como algo único.
Ese lado mío tal vez no aparezca explícitamente en mi biografía. Pero está presente en todo lo que hago.
Cuando pienso en SP by a Local, pienso exactamente en eso — no como un servicio, sino como una consecuencia natural. Nuestra recepción no busca impresionar. Busca hacer que las personas se sientan como en casa, incluso estando lejos de ella. Es escuchar antes de responder. Entender antes de ejecutar. Saber que el primer contacto es tan importante como el servicio en sí.
Porque, al final, un viaje no comienza cuando el auto empieza a moverse.
Comienza cuando alguien te está esperando.
Y acoger es eso: convertir la llegada en un comienzo.
Victor Mendes
SP by a Local



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