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Crônica: São Paulo first Impressions



Quando alguém conhece São Paulo pela primeira vez


Dirijo enquanto a cidade passa.


O volante já conhece o caminho, o corpo se adapta ao ritmo do trânsito, e os olhos fazem o que sempre fazem: observam sem estranhar.


Quem estranha é quem olha pela janela em silêncio.


Foi assim com um turista do Turcomenistão. Passamos alguns minutos sem conversa, só o som distante da cidade acordando. Até que ele quebrou o silêncio, quase como quem pede licença:


So many colors…


Demorei um segundo para entender. Ele falava dos carros. Para ele, aquilo era um espetáculo. No país de onde vinha, todos os carros são brancos. Todos. Aqui, aquela mistura de tons, mesmo contida, parecia exuberante.

Curioso, ele completou que achava engraçado que justamente os táxis fossem brancos.


Sorri, mas senti uma leve tristeza.


Aqui já foi mais colorido.


Cresci vendo a Avenida Paulista pulsar perto de casa, cheia de vida, de gente e de carros que tinham personalidade. Brasílias amarelas, Fuscas azul-calcinha, tons que hoje parecem invenção da memória.


Lembro da brincadeira infantil: quem visse um Fusca azul tinha direito a dar um tapa no colega ao lado. Já levei vários. Hoje, vejo meus clientes mirins repetindo o ritual no banco de trás, comemorando como se tivessem encontrado algo raro — porque encontraram.


Talvez a cor tenha virado exceção. E com ela, um pouco da ousadia.


Aqui em São Paulo, aprendemos cedo que distância não se mede em quilômetros. Mede-se em tempo. Costumo dizer, quase automaticamente:

“Aqui não importa quantos quilômetros são, importa quanto tempo leva para chegar.”


Cinco quilômetros pela Marginal podem ser mais perto do que cinco quilômetros dentro do bairro.


Eles riem.

Acham exagero.

Sempre acham.


Na volta, confirmam.


É fácil reconhecer um paulistano no trânsito. Mochila grande, uma bolsa a mais, às vezes um casaco esquecido no porta-malas. Estamos sempre preparados para um clima que muda rápido demais, para uma cidade que exige adaptação constante. Prevenção virou instinto. Para quem chega de fora, isso impressiona.


Quando recebo alguém em GRU, especialmente de manhã, sempre aviso o tempo estimado até o destino antes de sair. Às vezes ouço um espantado:


Are you serious?






Very Serious


A parte turística da cidade fica longe do aeroporto. E o trânsito matinal não pede desculpa. A Grande São Paulo tem mais gente do que muitos países, mas isso nem sempre cabe na imaginação de quem chega. O entendimento vem aos poucos: na quantidade de prédios, na extensão do horizonte, na sensação de que a cidade não acaba.


E então acontece algo curioso.

Ao contrário do imaginário da “selva de pedra” — de concreto, na verdade — São Paulo vai se revelando verde. Ruas arborizadas surgem quase sem aviso. Não preciso apontar. A reação vem sozinha. Árvores, praças, parques, respiros. A cidade não se explica, ela se mostra.


As artes também aparecem no caminho. Muros falam. Grafites contam histórias. Gosto de passar contando sobre nossos muralistas, sobre como a cidade virou tela. Alguns nomes fazem os olhos brilharem, outros despertam curiosidade. Há um em especial cuja história gosto de contar com cuidado:

o grafiteiro invisível. Alguém que começou pintando dentro de galerias pluviais, subterrâneas, com obras a poucos centímetros do público — e ainda assim fora do olhar. Invisível por escolha, por contexto, por cidade.


No meio do trajeto, percebo a mudança. É gradual. O espanto vira curiosidade. A curiosidade vira admiração. O brilho no olhar aparece sem anúncio.


Mostro que São Paulo não é cinza. Que tem vida, alegria, cor. Que também tem fofoca — afinal, aqui é o centro dos eventos, dos encontros, dos bastidores. E que eventos nós temos… mas essa já é outra história.


Sigo dirigindo.


A cidade continua passando.


E deixo no ar uma promessa silenciosa:


São Paulo ainda vai te surpreender.


Victor Mendes


SP by a Local




When Someone Experiences São Paulo for the First Time


I drive while the city moves past us.


The steering wheel already knows the way. My body adjusts to the rhythm of traffic, and my eyes do what they’ve learned to do over the years: observe without questioning.


The one who questions is the person looking out the window in silence.

That’s how it was with a traveler from Turkmenistan. We drove for a while without speaking, just the distant sound of the city waking up. Then, almost as if asking permission, he broke the silence:


So many colors…


It took me a second to understand. He was talking about the cars. For him, it was a spectacle. In his country, every car is white. All of them. Here, that mix of tones—muted as it may be—felt vibrant. He smiled and said he found it curious that taxis, of all vehicles, were white.


I smiled too, but felt a quiet sadness.


It used to be much better.


I grew up near Avenida Paulista, watching it pulse with life, close to where I lived and still at the center of the city’s collective imagination. Cars had personality back then. Yellow Brasílias. Light-blue Beetles. Colors that today feel almost invented by memory.

There was a childhood game: if you spotted a blue Beetle, you were allowed to slap the person next to you. I took many of those hits. Now I watch my youngest passengers repeat the ritual in the back seat, celebrating like they’ve discovered something rare—because they have.


Color became the exception. And with it, a bit of personality disappeared.


In São Paulo, we don’t measure distance in kilometers. We measure it in time. I say it almost automatically: “Here, distance doesn’t matter—what matters is how long it takes.”


Five kilometers along the Marginal can be closer than five kilometers inside a neighborhood.


They laugh.


They think I’m exaggerating.


They always do.


When they leave, they confirm it.


You can spot a São Paulo local easily. A backpack, an extra bag, sometimes a jacket forgotten in the trunk. We’re always prepared for a city where the weather changes fast and the pace changes even faster. Prevention has become instinct. For visitors, this is often surprising.


When I pick people up at GRU, especially in the morning, I always mention the estimated travel time before we leave.


Often, I hear the same reaction:


Are you serious?


I am.


The airport is far from the city’s tourist areas, and morning traffic doesn’t apologize.

Greater São Paulo has a population larger than many countries, but that scale is hard to imagine until you’re inside it. Understanding comes gradually—through the number of buildings, the endless skyline, the feeling that the city doesn’t really end.


And then something unexpected happens.

Contrary to the idea of a “concrete jungle,” São Paulo begins to reveal its green side.


Tree-lined streets appear without warning. I don’t even have to point them out. The reaction is immediate. Trees, squares, parks—breathing spaces. São Paulo doesn’t explain itself. It shows itself.

Art appears along the way too. Walls speak. Graffiti tells stories. I like to talk about our muralists, about how the city became a canvas. Some names spark recognition, others spark curiosity. One story I tell carefully

the invisible graffiti artist. Someone who began painting inside underground drainage tunnels, creating work just inches from the public, yet completely unseen. Invisible by circumstance, by choice, by city.



Halfway through the ride, I notice the change. It’s gradual. Surprise becomes curiosity. Curiosity turns into admiration.


The shine in their eyes appears quietly.

I show them that São Paulo isn’t gray. That it has life, joy, color—and gossip, of course. After all, this is the city of events, meetings, backstage stories. And what events we have here… but that’s another story.


I keep driving.


The city keeps moving.


And I leave a silent promise in the air:


São Paulo will still surprise you.



Victor Mendes

SP by a Local




Cuando alguien vive São Paulo por primera vez


Conduzco mientras la ciudad pasa.


El volante ya conoce el camino. El cuerpo se adapta al ritmo del tráfico y los ojos hacen lo que han aprendido con el tiempo: observar sin extrañarse.


Quien se extraña es quien mira por la ventana en silencio.


Así fue con un viajero de Turkmenistán. Avanzamos unos minutos sin hablar, solo con el sonido lejano de la ciudad despertando. Hasta que, casi pidiendo permiso, rompió el silencio:


Tantos colores…


Me tomó un segundo entender. Hablaba de los coches. Para él, era un espectáculo. En su país, todos los autos son blancos. Todos. Aquí, esa mezcla de tonos —aunque contenida— parecía vibrante. Sonrió y comentó que le resultaba curioso que los taxis fueran blancos.


Yo también sonreí, pero sentí una leve tristeza.


Aquí ya fue mucho mejor.


Crecí cerca de la Avenida Paulista, viéndola latir llena de vida, cerca de donde vivía y aún hoy en el centro del imaginario colectivo del paulistano. Los coches tenían personalidad. Brasílias amarillas, Fuscas azul claro. Colores que hoy parecen inventados por la memoria. Existía un juego infantil: quien viera un Fusca azul tenía derecho a darle un golpe al compañero de al lado. Recibí muchos. Hoy veo a mis clientes más pequeños repetir el ritual en el asiento trasero, celebrando como si hubieran encontrado algo raro—porque lo es.


El color se volvió excepción. Y con él, se perdió parte de la personalidad.


En São Paulo no medimos las distancias en kilómetros. Las medimos en tiempo. Lo digo casi de forma automática: “Aquí no importa cuántos kilómetros son, importa cuánto tiempo lleva llegar.”


Cinco kilómetros por la Marginal pueden ser más cerca que cinco kilómetros dentro de un barrio.


Se ríen.


Creen que exagero.


Siempre lo creen.


Cuando se van, lo confirman.


Es fácil reconocer a un paulistano. Mochila grande, una bolsa extra, a veces un abrigo olvidado en el maletero. Siempre estamos preparados para una ciudad donde el clima cambia rápido y el ritmo cambia aún más. La prevención se volvió instinto. Para el visitante, eso suele impresionar.


Cuando recibo a alguien en GRU, especialmente por la mañana, siempre informo el tiempo estimado del trayecto antes de salir. Muchas veces escucho la misma reacción:


¿Hablas en serio?


Hablo muy en serio.



El aeropuerto está lejos de las zonas turísticas y el tráfico matutino no pide disculpas. La Gran São Paulo tiene más habitantes que muchos países, pero esa dimensión no siempre cabe en la imaginación de quien llega. La comprensión viene poco a poco: en la cantidad de edificios, en el horizonte interminable, en la sensación de que la ciudad no termina.


Y entonces ocurre algo inesperado.


Contrario a la idea de una “jungla de cemento”, São Paulo empieza a mostrar su lado verde. Calles arboladas aparecen sin aviso. No necesito señalarlas. La reacción es inmediata. Árboles, plazas, parques, espacios para respirar. São Paulo no se explica. Se muestra.


El arte también aparece en el camino. Los muros hablan. El grafiti cuenta historias. Me gusta hablar de nuestros muralistas, de cómo la ciudad se convirtió en un lienzo. Algunos nombres generan admiración, otros curiosidad. Hay una historia que cuento con cuidado: la del grafitero invisible. Alguien que comenzó pintando dentro de galerías pluviales subterráneas, con obras a pocos centímetros del público y, aun así, invisibles. Invisible por contexto, por elección, por ciudad.


A mitad del trayecto, noto el cambio. Es gradual. El asombro se vuelve curiosidad.


La curiosidad se transforma en admiración. El brillo en los ojos aparece sin anuncio.


Les muestro que São Paulo no es gris. Que tiene vida, alegría, color y, claro, chismes. Al fin y al cabo, esta es la ciudad de los eventos, de los encuentros, de lo que sucede detrás de escena. Y qué eventos tenemos aquí… pero esa es otra historia.


Sigo conduciendo.


La ciudad continúa pasando.


Y dejo en el aire una promesa silenciosa:


São Paulo todavía va a sorprenderte.


Victor Mendes

SP by a Local

 
 
 

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