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Local do MASP Capítulo 2

Oct 21
19 min read


O terreno que virou da cidade


O verdadeiro museu é o que acontece embaixo dele — Capítulo 2


São Paulo tem uma habilidade extraordinária para transformar histórias complicadas em explicações simples.

Às vezes, simples até demais.

Quem já perguntou por que o MASP tem aquele enorme vão livre provavelmente ouviu uma história muito bonita.

O terreno teria sido doado à Prefeitura por Joaquim Eugênio de Lima, um dos responsáveis pela criação da Avenida Paulista, com uma única exigência: ninguém poderia construir nada que impedisse a vista para o Centro.

Décadas depois, Lina Bo Bardi teria resolvido o problema de maneira genial, suspendendo um museu inteiro sobre quatro pilares.

É uma história perfeita.

Tem um benfeitor, uma promessa, uma arquiteta brilhante e um final feliz.

Só faltou combinar alguns detalhes com os documentos históricos.

Porque, aparentemente, não foi bem assim.


O homem que imaginou a Paulista


Para entender como aquele terreno chegou às mãos da cidade, precisamos voltar ao final do século XIX.

São Paulo crescia, enriquecia e começava a olhar para além de seu núcleo histórico.

Foi nesse contexto que o engenheiro uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, ao lado de seus associados, participou da criação de um empreendimento imobiliário bastante ambicioso.

Uma avenida larga, arborizada, instalada no alto do espigão e destinada a receber os palacetes de uma elite que já não queria morar nas ruas estreitas do Centro.

A Avenida Paulista, inaugurada em 1891.

Era urbanismo, mas também era negócio.

A cidade crescia, os terrenos eram loteados e a paisagem se transformava em patrimônio imobiliário.

E entre os participantes desse empreendimento estava um personagem que quase desapareceu da memória popular.

José Borges de Figueiredo.

Guarde esse nome.

Ele é mais importante para a história do MASP do que muita gente imagina.


Uma doação que foi uma venda


Durante décadas, a história da doação atribuída a Joaquim Eugênio de Lima foi repetida em livros, reportagens e até relatos sobre a própria Lina Bo Bardi.

Mas o arquiteto e historiador italiano Daniele Pisani resolveu investigar a documentação do terreno.

E encontrou uma história diferente.

Segundo os registros estudados por Pisani, o proprietário da área era José Borges de Figueiredo, associado de Eugênio de Lima no empreendimento da Paulista.

E, em 1911, durante a administração municipal de Raymundo Duprat, o terreno foi adquirido pela municipalidade.

Adquirido. Não recebido como doação.

Pode parecer uma diferença pequena.

Afinal, o resultado foi o mesmo: o terreno passou a pertencer à cidade.

Mas essa distinção muda a maneira como entendemos tudo o que aconteceu depois.

Porque também havia uma segunda parte na história tradicional.

A famosa obrigação de preservar a vista.


Uma promessa para sempre?


Existe um detalhe especialmente interessante na documentação daquele período.

José Borges de Figueiredo escreveu ao prefeito manifestando o desejo de que a área permanecesse como um “logradouro público perpétuo”.

A expressão é bonita.

E bastante significativa.

Um logradouro público é um espaço destinado ao uso coletivo, como uma rua, praça ou outro lugar acessível à população.

Perpétuo significa aquilo que deveria permanecer para sempre.

Portanto, havia uma intenção de preservar o caráter público daquele terreno.

Mas isso não é a mesma coisa que estabelecer uma proibição jurídica absoluta de construir qualquer edifício que interferisse na paisagem.

A pesquisa de Pisani não encontrou na documentação da transação a célebre cláusula que teria obrigado Lina a preservar a vista para o Centro.

Isso não significa que a vista não fosse importante.

Como vimos no primeiro capítulo, era justamente ela que dava identidade ao lugar.

Significa apenas que precisamos distinguir três coisas:

O desejo de preservar um espaço público.

A importância histórica da paisagem.

E a existência de uma obrigação legal específica.

São coisas relacionadas, mas não necessariamente iguais.

E São Paulo, como qualquer cidade cheia de histórias, às vezes mistura as três.


O Belvedere vira patrimônio da cidade


A partir daquela aquisição, o terreno passou a integrar o patrimônio municipal.

Poucos anos depois, em 1916, seria inaugurado o Belvedere Trianon, projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo.

Era o lugar que conhecemos no capítulo anterior.

Terraços, salões, restaurante, festas, encontros e uma vista privilegiada para o Centro.

Do outro lado da avenida, a mata do Trianon.

Durante décadas, aquele conjunto representou uma maneira bastante particular de viver a Paulista.

Mas havia uma contradição interessante.

O terreno era público.

O Belvedere, porém, estava profundamente associado aos hábitos e à sociabilidade da elite paulistana.

A cidade era de todos.

A festa, nem sempre.

Ainda assim, havia ali algo que sobreviveria a todas as transformações seguintes: a ideia de que aquele endereço deveria ter alguma função coletiva.

E a próxima transformação seria radical.


Quando o Belvedere saiu de cena


Em 1951, o antigo Belvedere foi demolido.

A São Paulo dos palacetes, dos chás elegantes e dos passeios de domingo estava dando lugar a outra cidade.

Mais industrial.

Mais vertical.

Mais apressada.

E também mais interessada em afirmar sua importância cultural no mundo.

Naquele mesmo ano, São Paulo receberia a primeira Bienal Internacional de Arte.

O evento era uma iniciativa ligada ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM, fundado por Francisco Matarazzo Sobrinho.

Ou, como quase todo mundo o conhecia, Ciccillo Matarazzo.

Industrial, mecenas e uma das figuras mais influentes da vida cultural paulistana, Ciccillo queria colocar São Paulo no circuito internacional da arte moderna.

E precisava de um lugar para apresentar essa ambição.

Adivinhe qual terreno entrou na história?

Exatamente.

O antigo Belvedere Trianon.


A arte moderna chega à Paulista


Para a primeira Bienal, foi construído naquele espaço um pavilhão temporário, projetado pelos arquitetos Eduardo Kneese de Mello e Luís Saia.

Onde antes a elite se reunia para contemplar a paisagem, agora o público encontraria obras de arte moderna vindas de diferentes países.

A transformação era simbólica.

O antigo mirante social se tornava palco de um acontecimento cultural internacional.

E, de certa maneira, a história do futuro MASP começava a se anunciar.

Mas não tão depressa.

Porque aquele não era um projeto do MASP.

Era uma iniciativa ligada ao MAM.

E isso faz toda a diferença.


Dois museus, duas ambições


Naquela São Paulo dos anos 1950, havia dois projetos culturais de enorme importância.

De um lado, Ciccillo Matarazzo e o Museu de Arte Moderna, associados à Bienal e à promoção da arte moderna internacional.

Do outro, Assis Chateaubriand e o Museu de Arte de São Paulo, fundado em 1947, com Pietro Maria Bardi desempenhando papel decisivo na formação do acervo e na concepção do museu.

Chateaubriand não era apenas um colecionador ou patrocinador.

Era o homem por trás dos Diários Associados, um dos maiores impérios de comunicação do Brasil.

Ciccillo tinha influência econômica, cultural e política.

Chatô tinha jornais, rádios, televisão, contatos e uma capacidade extraordinária de mobilização.

Ambos queriam deixar uma marca permanente na cidade.

E, em algum momento, seus projetos passaram a disputar o mesmo pedaço de chão.

O terreno do Trianon.


Antes de Lina, outros arquitetos


Há outro detalhe pouco conhecido nessa história.

Antes de o MASP de Lina Bo Bardi se tornar realidade, outros arquitetos imaginaram museus para aquele lugar.

Entre eles, Affonso Eduardo Reidy, autor de importantes obras da arquitetura moderna brasileira.

Reidy desenvolveu uma proposta de museu para o MAM que também procurava responder à topografia e às relações visuais daquele terreno.

Isso é particularmente revelador.

A ideia de construir um museu ali não surgiu exclusivamente com Lina.

Tampouco era evidente que o lote estivesse destinado ao MASP.

Existiam outros projetos, outras soluções arquitetônicas e outros interesses em jogo.

O pesquisador Daniele Pisani reconstruiu essa sucessão de propostas e negociações, envolvendo nomes como Reidy, Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas e, finalmente, Lina Bo Bardi.

Cada projeto expressava uma maneira diferente de imaginar a relação entre o edifício, a cidade e aquele terreno excepcional.

Mas havia uma questão que nenhum desenho, por mais brilhante que fosse, poderia resolver sozinho.


Quem conseguiria o direito de construir ali?


Um terreno, muitas São Paulos


Repare como aquele pequeno pedaço da Paulista já havia atravessado diferentes versões da cidade.

Primeiro, a expansão imobiliária do final do século XIX.

Depois, o desejo de criar um espaço público de contemplação.

Em seguida, o Belvedere e a sociabilidade da elite.

Mais tarde, a arte moderna e a primeira Bienal.

E agora, uma disputa pela construção de um museu permanente.

O terreno continuava no mesmo lugar.

Mas São Paulo não parava de mudar o que desejava fazer com ele.

Talvez seja justamente essa a parte mais interessante da história.

Um espaço público nunca é apenas um pedaço de terra.

Ele carrega decisões políticas, interesses econômicos, ambições culturais e diferentes ideias sobre quem tem o direito de ocupar a cidade.

E o Trianon estava prestes a se transformar em um dos melhores exemplos disso.


A disputa estava apenas começando


O MAM já havia ocupado o terreno com a Bienal.

O MASP procurava uma sede definitiva.

Ciccillo Matarazzo tinha seus planos.

Assis Chateaubriand tinha os dele.

A Prefeitura controlava o destino da área.

E havia uma arquiteta italiana que conhecia muito bem aquele endereço e começava a imaginar algo bastante diferente.

O nome dela era Lina Bo Bardi.

Mas não pense que ela simplesmente recebeu uma encomenda, sentou diante da prancheta e desenhou o museu.

Antes de levantar o edifício, Lina precisaria participar de uma negociação muito mais complicada.

Uma história com empresários, políticos, jornais, promessas e até divergências dentro do próprio MASP.

Porque, em São Paulo, às vezes conseguir o terreno é mais difícil do que construir o prédio.

E, naquele caso, seria preciso convencer muita gente.

Inclusive Pietro Bardi.


No próximo capítulo:


A guerra pelo Trianon


Ciccillo Matarazzo, Assis Chateaubriand, Adhemar de Barros e a arquiteta que resolveu entrar na disputa por um dos endereços mais cobiçados de São Paulo.


SP by a Local — São Paulo tem histórias que não cabem nos cartões-postais.



The Land That Became the City's


The Real Museum Is What Happens Beneath It — Chapter 2


São Paulo has an extraordinary talent for turning complicated stories into simple explanations.

Sometimes a little too simple.

Anyone who has ever asked why MASP has that enormous open space beneath it has probably heard a rather beautiful story.

The land was supposedly donated to the city by Joaquim Eugênio de Lima, one of the men responsible for creating Avenida Paulista, on one condition: nothing could ever be built there that would obstruct the view of downtown São Paulo.

Decades later, Lina Bo Bardi supposedly solved the problem brilliantly by suspending an entire museum above the ground on four pillars.

It's a perfect story.

There's a benefactor, a promise, a brilliant architect, and a happy ending.

There's just one small problem.

Some of the historical documents tell a different story.

Because, apparently, that's not quite how things happened.


The Man Who Imagined Avenida Paulista


To understand how that piece of land ended up in the city's hands, we need to travel back to the late nineteenth century.

São Paulo was growing, becoming wealthier, and beginning to look beyond its historic center.

It was in this context that Uruguayan engineer Joaquim Eugênio de Lima, together with his business partners, helped develop an ambitious real estate project.

A wide, tree-lined avenue running along a ridge overlooking the city, designed to accommodate the mansions of an elite that no longer wanted to live along the narrow streets of downtown São Paulo.

Avenida Paulista, inaugurated in 1891.

It was urban planning, certainly.

But it was also business.

The city was expanding, land was being subdivided into building lots, and the landscape itself was becoming valuable real estate.

Among those involved in the venture was a man whose name has almost disappeared from popular memory.

José Borges de Figueiredo.

Remember that name.

He's far more important to the history of MASP than most people realize.


A Donation That Was Actually a Sale


For decades, the story of the land being donated by Joaquim Eugênio de Lima was repeated in books, newspaper articles, and even accounts of Lina Bo Bardi's work.

But Italian architect and historian Daniele Pisani decided to investigate the property's historical records.

And he discovered a different story.

According to the documents examined by Pisani, the land belonged to José Borges de Figueiredo, an associate of Eugênio de Lima in the Avenida Paulista development.

In 1911, during the municipal administration of Raymundo Duprat, the property was acquired by the city.

Acquired. Not received as a donation.

It might seem like a minor distinction.

After all, the outcome was the same: the land became public property.

But that distinction changes how we understand everything that happened afterward.

Because there was another part to the traditional story.

The famous requirement to preserve the view.


A Promise to Last Forever?


There's a particularly interesting detail in the documents from that period.

José Borges de Figueiredo wrote to the mayor expressing his wish that the land should remain a "logradouro público perpétuo" — a permanent public space.

It's a beautiful expression.

And a meaningful one.

In Brazilian urban terminology, a logradouro público is an area intended for public use, such as a street, square, or another space accessible to the community.

Perpétuo means something intended to last forever.

In other words, there was a clear intention to preserve the public character of the property.

But that is not the same as establishing an absolute legal prohibition against constructing anything that might interfere with the landscape.

Pisani's research found no evidence in the transaction documents of the celebrated clause that supposedly forced Lina to preserve the view of downtown São Paulo.

That doesn't mean the view wasn't important.

As we saw in Chapter 1, it was precisely that view that gave the place its identity.

It simply means we need to distinguish between three things:

The desire to preserve a public space.

The historical importance of the landscape.

And the existence of a specific legal obligation.

They are related, but they are not necessarily the same.

And São Paulo, like any city full of stories, sometimes mixes all three together.


The Belvedere Becomes Part of the City


Following that acquisition, the land became municipal property.

A few years later, in 1916, the Belvedere Trianon, designed by the architectural firm of Ramos de Azevedo, would open there.

It was the place we explored in the previous chapter.

Terraces, reception halls, a restaurant, parties, gatherings, and a privileged view of downtown São Paulo.

Across the avenue stood the forest of Trianon Park.

For decades, this ensemble represented a very particular way of experiencing Avenida Paulista.

But there was an interesting contradiction.

The land was public.

The Belvedere, however, was closely associated with the habits and social life of São Paulo's elite.

The city belonged to everyone.

The party didn't always.

Even so, something survived every transformation that followed: the idea that this address should serve some kind of collective purpose.

And the next transformation would be radical.


When the Belvedere Left the Stage


In 1951, the old Belvedere was demolished.

The São Paulo of grand mansions, elegant afternoon teas, and leisurely Sunday strolls was giving way to another city.

More industrial.

More vertical.

More hurried.

And increasingly eager to establish its cultural importance on the world stage.

That same year, São Paulo would host its first International Art Biennial.

The event was organized in connection with the Museu de Arte Moderna de São Paulo — MAM, founded by Francisco Matarazzo Sobrinho.

Or, as almost everyone knew him, Ciccillo Matarazzo.

An industrialist, arts patron, and one of the most influential figures in São Paulo's cultural life, Ciccillo wanted to place the city on the international modern art circuit.

And he needed somewhere to make that ambition visible.

Guess which piece of land entered the picture?

Exactly.

The former Belvedere Trianon.


Modern Art Arrives on Avenida Paulista


For the first Biennial, a temporary pavilion was built on the site, designed by architects Eduardo Kneese de Mello and Luís Saia.

Where the elite had once gathered to admire the landscape, visitors would now encounter modern artworks from around the world.

The transformation was symbolic.

The former social lookout became the stage for an international cultural event.

And, in a way, the story of the future MASP was beginning to take shape.

But not so fast.

Because this wasn't a MASP project.

It was an initiative associated with MAM.

And that makes all the difference.


Two Museums, Two Ambitions


In São Paulo during the 1950s, two major cultural projects were taking shape.

On one side stood Ciccillo Matarazzo and the Museum of Modern Art, associated with the Biennial and the promotion of international modern art.

On the other stood Assis Chateaubriand and the São Paulo Museum of Art, founded in 1947, with Pietro Maria Bardi playing a decisive role in building its collection and shaping the museum's identity.

Chateaubriand wasn't merely an art collector or financial supporter.

He was the man behind Diários Associados, one of Brazil's largest media empires.

Ciccillo had economic, cultural, and political influence.

Chatô, as Chateaubriand was commonly known, had newspapers, radio stations, television, connections, and an extraordinary ability to mobilize people.

Both wanted to leave a lasting mark on the city.

And at some point, their cultural ambitions converged on the same piece of land.

The Trianon site.


Before Lina, There Were Other Architects


There's another little-known detail in this story.

Before Lina Bo Bardi's MASP became a reality, other architects had imagined museums for that location.

Among them was Affonso Eduardo Reidy, responsible for several important works of Brazilian modern architecture.

Reidy developed a museum proposal for MAM that also sought to respond to the site's topography and visual relationship with the surrounding city.

This is particularly revealing.

The idea of building a museum there did not originate exclusively with Lina.

Nor was it inevitable that the site would become MASP's permanent home.

There were other proposals, other architectural solutions, and other interests at play.

Researcher Daniele Pisani reconstructed this succession of projects and negotiations, involving figures such as Reidy, Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas, and, eventually, Lina Bo Bardi.

Each proposal expressed a different way of imagining the relationship between architecture, the city, and that exceptional piece of land.

But there was one question that no drawing, however brilliant, could answer on its own.


Who would secure the right to build there?


One Piece of Land, Many Versions of São Paulo


Think about how many different versions of the city that small stretch of Avenida Paulista had already witnessed.

First, the real estate expansion of the late nineteenth century.

Then, the desire to create a public space for contemplating the landscape.

Next came the Belvedere and the social life of São Paulo's elite.

Later, modern art and the first Biennial.

And now, a dispute over the construction of a permanent museum.

The land remained exactly where it had always been.

But São Paulo kept changing what it wanted to do with it.

Perhaps that's the most interesting part of the story.

A public space is never just a piece of land.

It carries political decisions, economic interests, cultural ambitions, and competing ideas about who has the right to occupy the city.

And Trianon was about to become one of the clearest examples of that.


The Dispute Was Only Beginning


MAM had already occupied the site with the Biennial.

MASP was looking for a permanent home.

Ciccillo Matarazzo had his plans.

Assis Chateaubriand had his.

City Hall controlled the future of the property.

And there was an Italian architect who knew that address very well and was beginning to imagine something quite different.

Her name was Lina Bo Bardi.

But don't imagine she simply received a commission, sat down at her drawing board, and designed the museum.

Before she could raise the building, Lina would have to navigate a far more complicated negotiation.

A story involving businessmen, politicians, newspapers, promises, and even disagreements within MASP itself.

Because in São Paulo, sometimes securing the land is harder than constructing the building.

And in this particular case, quite a few people would need convincing.

Including Pietro Bardi.


In the next chapter:


The Battle for Trianon


Ciccillo Matarazzo, Assis Chateaubriand, Adhemar de Barros, and the architect who decided to enter the competition for one of São Paulo's most coveted addresses.


SP by a Local — São Paulo has stories that don't fit on postcards.



El terreno que pasó a ser de la ciudad


El verdadero museo es lo que sucede debajo de él — Capítulo 2


São Paulo tiene una habilidad extraordinaria para convertir historias complicadas en explicaciones sencillas.

A veces, demasiado sencillas.

Quien alguna vez se haya preguntado por qué el MASP tiene ese enorme espacio abierto debajo del edificio probablemente haya escuchado una historia muy bonita.

Supuestamente, el terreno fue donado al Ayuntamiento por Joaquim Eugênio de Lima, uno de los responsables de la creación de la Avenida Paulista, con una única condición: nadie podría construir nada que obstruyera la vista hacia el centro de la ciudad.

Décadas después, Lina Bo Bardi habría resuelto el problema de manera genial, suspendiendo un museo entero sobre cuatro pilares.

Es una historia perfecta.

Tiene un benefactor, una promesa, una arquitecta brillante y un final feliz.

Solo faltó comprobar algunos detalles con los documentos históricos.

Porque, al parecer, las cosas no sucedieron exactamente así.


El hombre que imaginó la Avenida Paulista


Para entender cómo aquel terreno terminó en manos de la ciudad, tenemos que regresar a finales del siglo XIX.

São Paulo crecía, se enriquecía y comenzaba a mirar más allá de su centro histórico.

Fue en ese contexto cuando el ingeniero uruguayo Joaquim Eugênio de Lima, junto con sus socios, participó en la creación de un proyecto inmobiliario bastante ambicioso.

Una avenida amplia, arbolada, situada en lo alto de una elevación y destinada a albergar las mansiones de una élite que ya no quería vivir en las estrechas calles del centro.

La Avenida Paulista, inaugurada en 1891.

Era urbanismo, pero también era negocio.

La ciudad crecía, los terrenos se dividían en lotes y el paisaje se transformaba en patrimonio inmobiliario.

Y entre los participantes de aquel emprendimiento se encontraba un personaje cuyo nombre casi ha desaparecido de la memoria popular.

José Borges de Figueiredo.

Recuerden ese nombre.

Es mucho más importante para la historia del MASP de lo que la mayoría imagina.


Una donación que en realidad fue una venta


Durante décadas, la historia de la donación atribuida a Joaquim Eugênio de Lima se repitió en libros, artículos periodísticos e incluso en relatos sobre la propia Lina Bo Bardi.

Pero el arquitecto e historiador italiano Daniele Pisani decidió investigar los documentos históricos de la propiedad.

Y encontró una historia diferente.

Según los registros estudiados por Pisani, el terreno pertenecía a José Borges de Figueiredo, socio de Eugênio de Lima en el emprendimiento de la Avenida Paulista.

Y en 1911, durante la administración municipal de Raymundo Duprat, la propiedad fue adquirida por el Ayuntamiento.

Adquirida. No recibida como donación.

Puede parecer una diferencia pequeña.

Al fin y al cabo, el resultado fue el mismo: el terreno pasó a ser propiedad pública.

Pero esa distinción cambia nuestra manera de entender todo lo que sucedió después.

Porque también había una segunda parte en la historia tradicional.

La famosa obligación de preservar la vista.


¿Una promesa para siempre?


Hay un detalle especialmente interesante en los documentos de aquella época.

José Borges de Figueiredo escribió al alcalde expresando su deseo de que el terreno permaneciera como un «logradouro público perpétuo», es decir, un espacio público de carácter permanente.

La expresión es bonita.

Y bastante significativa.

En el urbanismo brasileño, un logradouro público es un espacio destinado al uso colectivo, como una calle, una plaza u otro lugar accesible a la población.

Perpétuo significa aquello que debería permanecer para siempre.

Por lo tanto, existía la intención de preservar el carácter público de aquel terreno.

Pero eso no es lo mismo que establecer una prohibición jurídica absoluta de construir cualquier edificio que pudiera interferir con el paisaje.

La investigación de Pisani no encontró en la documentación de la transacción la célebre cláusula que supuestamente habría obligado a Lina a preservar la vista hacia el centro.

Eso no significa que la vista no fuera importante.

Como vimos en el primer capítulo, era precisamente esa vista la que daba identidad al lugar.

Simplemente significa que debemos distinguir tres cosas:

El deseo de preservar un espacio público.

La importancia histórica del paisaje.

Y la existencia de una obligación legal específica.

Son cuestiones relacionadas, pero no necesariamente iguales.

Y São Paulo, como cualquier ciudad llena de historias, a veces mezcla las tres.


El Belvedere pasa a formar parte de la ciudad


Después de aquella adquisición, el terreno pasó a integrar el patrimonio municipal.

Pocos años después, en 1916, se inauguraría el Belvedere Trianon, proyectado por el estudio de arquitectura de Ramos de Azevedo.

Era el lugar que conocimos en el capítulo anterior.

Terrazas, salones, restaurante, fiestas, encuentros y una vista privilegiada hacia el centro de São Paulo.

Al otro lado de la avenida, el bosque del Trianon.

Durante décadas, aquel conjunto representó una manera muy particular de vivir la Avenida Paulista.

Pero existía una contradicción interesante.

El terreno era público.

Sin embargo, el Belvedere estaba profundamente asociado con las costumbres y la vida social de la élite paulista.

La ciudad era de todos.

La fiesta, no siempre.

Aun así, había algo que sobreviviría a todas las transformaciones posteriores: la idea de que aquella dirección debía cumplir alguna función colectiva.

Y la siguiente transformación sería radical.


Cuando el Belvedere salió de escena


En 1951, el antiguo Belvedere fue demolido.

La São Paulo de las grandes mansiones, los elegantes tés de la tarde y los paseos dominicales estaba dando paso a otra ciudad.

Más industrial.

Más vertical.

Más acelerada.

Y también más interesada en afirmar su importancia cultural en el mundo.

Ese mismo año, São Paulo recibiría su primera Bienal Internacional de Arte.

El evento era una iniciativa vinculada al Museo de Arte Moderno de São Paulo, el MAM, fundado por Francisco Matarazzo Sobrinho.

O, como casi todo el mundo lo conocía, Ciccillo Matarazzo.

Industrial, mecenas y una de las figuras más influyentes de la vida cultural paulista, Ciccillo quería situar a São Paulo en el circuito internacional del arte moderno.

Y necesitaba un lugar donde presentar aquella ambición.

¿Adivinan qué terreno entró en la historia?

Exactamente.

El antiguo Belvedere Trianon.


El arte moderno llega a la Avenida Paulista


Para la primera Bienal se construyó en aquel espacio un pabellón temporal, proyectado por los arquitectos Eduardo Kneese de Mello y Luís Saia.

Donde antes la élite se reunía para contemplar el paisaje, ahora el público encontraría obras de arte moderno procedentes de diferentes países.

La transformación era simbólica.

El antiguo mirador social se convertía en escenario de un acontecimiento cultural internacional.

Y, de cierta manera, la historia del futuro MASP comenzaba a anunciarse.

Pero no tan rápido.

Porque aquel no era un proyecto del MASP.

Era una iniciativa vinculada al MAM.

Y eso cambia por completo la historia.


Dos museos, dos ambiciones


En la São Paulo de los años cincuenta existían dos proyectos culturales de enorme importancia.

Por un lado, Ciccillo Matarazzo y el Museo de Arte Moderno, asociados con la Bienal y la promoción del arte moderno internacional.

Por otro, Assis Chateaubriand y el Museo de Arte de São Paulo, fundado en 1947, con Pietro Maria Bardi desempeñando un papel decisivo en la formación de la colección y en la concepción del museo.

Chateaubriand no era simplemente un coleccionista o patrocinador.

Era el hombre detrás de Diários Associados, uno de los mayores imperios de comunicación de Brasil.

Ciccillo tenía influencia económica, cultural y política.

Chatô, como se conocía a Chateaubriand, tenía periódicos, emisoras de radio, televisión, contactos y una extraordinaria capacidad de movilización.

Ambos querían dejar una huella permanente en la ciudad.

Y, en algún momento, sus proyectos comenzaron a disputar el mismo pedazo de tierra.

El terreno del Trianon.


Antes de Lina, hubo otros arquitectos


Hay otro detalle poco conocido de esta historia.

Antes de que el MASP de Lina Bo Bardi se hiciera realidad, otros arquitectos habían imaginado museos para aquel lugar.

Entre ellos, Affonso Eduardo Reidy, autor de importantes obras de la arquitectura moderna brasileña.

Reidy desarrolló una propuesta de museo para el MAM que también buscaba responder a la topografía y a las relaciones visuales de aquel terreno.

Esto resulta especialmente revelador.

La idea de construir un museo allí no surgió exclusivamente de Lina.

Tampoco era evidente que el terreno estuviera destinado al MASP.

Existían otros proyectos, otras soluciones arquitectónicas y otros intereses en juego.

El investigador Daniele Pisani reconstruyó esa sucesión de propuestas y negociaciones, que involucraron a figuras como Reidy, Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas y, finalmente, Lina Bo Bardi.

Cada proyecto expresaba una manera diferente de imaginar la relación entre el edificio, la ciudad y aquel terreno excepcional.

Pero había una cuestión que ningún dibujo, por brillante que fuera, podía resolver por sí solo.


¿Quién conseguiría el derecho de construir allí?


Un terreno, muchas versiones de São Paulo


Fíjense en cuántas versiones diferentes de la ciudad había atravesado ya aquel pequeño pedazo de la Avenida Paulista.

Primero, la expansión inmobiliaria de finales del siglo XIX.

Después, el deseo de crear un espacio público para contemplar el paisaje.

Más tarde, el Belvedere y la vida social de la élite.

Luego, el arte moderno y la primera Bienal.

Y ahora, una disputa por la construcción de un museo permanente.

El terreno seguía en el mismo lugar.

Pero São Paulo no dejaba de cambiar lo que quería hacer con él.

Tal vez esa sea precisamente la parte más interesante de la historia.

Un espacio público nunca es solamente un pedazo de tierra.

Lleva consigo decisiones políticas, intereses económicos, ambiciones culturales y diferentes ideas sobre quién tiene derecho a ocupar la ciudad.

Y el Trianon estaba a punto de convertirse en uno de los mejores ejemplos de ello.


La disputa apenas comenzaba


El MAM ya había ocupado el terreno con la Bienal.

El MASP buscaba una sede definitiva.

Ciccillo Matarazzo tenía sus planes.

Assis Chateaubriand tenía los suyos.

El Ayuntamiento controlaba el destino del área.

Y había una arquitecta italiana que conocía muy bien aquella dirección y comenzaba a imaginar algo bastante diferente.

Su nombre era Lina Bo Bardi.

Pero no piensen que simplemente recibió un encargo, se sentó frente a su mesa de dibujo y diseñó el museo.

Antes de levantar el edificio, Lina tendría que participar en una negociación mucho más complicada.

Una historia con empresarios, políticos, periódicos, promesas e incluso desacuerdos dentro del propio MASP.

Porque, en São Paulo, a veces conseguir el terreno es más difícil que construir el edificio.

Y, en aquel caso, habría que convencer a mucha gente.

Incluso a Pietro Bardi.


En el próximo capítulo:


La batalla por el Trianon


Ciccillo Matarazzo, Assis Chateaubriand, Adhemar de Barros y la arquitecta que decidió entrar en la disputa por una de las direcciones más codiciadas de São Paulo.


SP by a Local — São Paulo tiene historias que no caben en las postales.

 
 
 

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