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Local do MASP Capítulo 1

Oct 6
12 min read


Antes do MASP, havia uma vista


Hoje é difícil imaginar a Avenida Paulista vazia.

Vazia de prédios, de carros, de gente, de letreiros. E talvez seja ainda mais difícil imaginar que, muito antes de alguém pensar em colocar um museu ali, uma das atrações daquele pedaço da avenida era justamente aquilo que não havia.

Nada.

Ou melhor: havia uma vista.

Para entender por que o MASP tem aquele enorme espaço vazio embaixo dele, precisamos voltar a uma São Paulo em que a Paulista ainda terminava praticamente no horizonte.

E começar por uma palavra italiana.

Belvedere.

Bel vedere: bela vista.

Na arquitetura, o nome é usado para um lugar criado ou escolhido justamente para contemplar a paisagem. Pode ser um terraço, um pavilhão, uma plataforma ou simplesmente um ponto privilegiado de observação.

E a Avenida Paulista tinha um lugar perfeito para isso.


Uma avenida no alto da cidade


A Paulista foi aberta em 1891 sobre uma das áreas mais altas de São Paulo.

Mais ou menos no meio dela havia uma condição geográfica especial.

O terreno despencava em direção ao vale do córrego Saracura, o curso d'água que, décadas depois, seria canalizado e daria lugar ao eixo da atual Avenida Nove de Julho.

Era como se a cidade tivesse aberto uma janela natural naquele ponto.

Do alto da Paulista, o olhar conseguia escapar pelo vale em direção ao Centro.

Onde hoje enxergamos uma parede irregular de edifícios, havia uma perspectiva muito mais aberta da cidade.

Era uma São Paulo horizontal.

E alguém percebeu que aquele lugar merecia um mirante.


Nasce o Belvedere


No início da década de 1910 começou a tomar forma naquele terreno o projeto de um belvedere assinado pelo escritório de Ramos de Azevedo, o mesmo nome por trás de alguns dos edifícios mais emblemáticos da São Paulo daquele período.

O conjunto seria inaugurado em 1916.

Mas não imagine apenas um mirante com algumas pessoas encostadas numa mureta olhando o horizonte.

São Paulo nunca foi muito boa em fazer as coisas pela metade quando queria impressionar.

O Belvedere tinha terraços, salões, restaurante, espaços para festas e uma extensa pérgula.

Era lugar para olhar a cidade.

Mas também para ser visto olhando a cidade.


A sala de visitas da elite paulistana


Nas décadas de 1920 e 1930, o Belvedere e o parque localizado exatamente à sua frente tornaram-se um dos conjuntos mais elegantes de São Paulo.

Ali aconteciam festas.

Concertos.

Bailes.

Reuniões.

Chás da tarde.

Passeios de domingo.

Era frequentado pela elite econômica, política e intelectual de uma cidade enriquecida pelo café, pela indústria e pelo comércio.

Em outras palavras: se existisse Instagram nos anos 1920, provavelmente haveria bastante gente marcando localização no Trianon.

O lugar virou uma espécie de sala de visitas da Paulista.

E havia algo particularmente interessante naquela experiência.

De um lado, você tinha a cidade.

Do outro, uma floresta.


A mata do outro lado da rua


Atravesse a Paulista hoje, saindo do MASP, e você entra no Parque Tenente Siqueira Campos.

Mas quase ninguém o chama assim.

Para São Paulo, ele continua sendo simplesmente o Trianon.

O parque havia sido inaugurado em 1892, apenas um ano depois da própria Avenida Paulista.

E existe algo extraordinário escondido atrás de seus portões.

Parte daquela vegetação é remanescente da Mata Atlântica original do município.

Entre edifícios, trânsito, concreto e algumas das quadras mais valorizadas do Brasil sobrevivem árvores que pertencem à paisagem existente antes de toda aquela urbanização.

É uma pequena cápsula da São Paulo que existia antes da Paulista.

E isso fazia daquele trecho da avenida uma composição quase perfeita.

De um lado:

mata.

Do outro:

vista.

No meio:

a Paulista.


Trianon de um lado. Trianon do outro.


Existe ainda uma pequena confusão paulistana que vale explicar.

Hoje falamos “Trianon” e imediatamente pensamos no parque.

Mas o nome estava intimamente ligado também ao conjunto do outro lado da avenida.

O Belvedere e o parque passaram a funcionar quase como uma única experiência urbana.

Você podia caminhar entre árvores e, poucos metros depois, atravessar a avenida e encontrar um terraço aberto sobre a cidade.

Nas décadas de 1920 e 1930, a própria Prefeitura descreve parque e belvedere como um conjunto integrado que se tornou símbolo da riqueza da elite paulistana.

Talvez seja justamente aqui que começa a história arquitetônica do MASP.

Décadas antes de Lina Bo Bardi desenhar uma única linha daquele edifício, aquele lugar já possuía duas características muito fortes:

a natureza de um lado e a paisagem urbana do outro.

Construir naquele terreno significaria inevitavelmente interferir nessa relação.


A vista que São Paulo engoliu


Agora faça uma experiência.

Na próxima vez que passar pelo MASP, não olhe primeiro para o museu.

Pare no vão.

Vire-se em direção ao Centro.

Tente enxergar através dos prédios.

A abertura continua ali.

A geografia continua ali.

O vale continua descendo em direção à Nove de Julho.

Mas a paisagem mudou.

Ao longo do século XX, São Paulo verticalizou o vale. Prédios cresceram exatamente dentro daquela perspectiva e foram progressivamente escondendo a vista que havia transformado o lugar em um belvedere.

O próprio MASP reconhece hoje que o desenvolvimento e a verticalização da cidade acabaram obstruindo aquela antiga visão do Centro.

Existe uma ironia maravilhosa nisso.

Décadas depois, Lina Bo Bardi faria um esforço arquitetônico monumental para não fechar aquela janela.

Lina preservaria a abertura.

São Paulo é que construiria na frente dela.

Mas estamos adiantando nossa história.

Porque antes de Lina, antes do MASP e antes até das disputas entre alguns dos homens mais poderosos da São Paulo do século XX, precisamos responder a uma pergunta aparentemente simples:

de quem era aquele terreno?

É aí que nossa história começa a ficar estranha.

Durante décadas repetiu-se uma versão quase perfeita: o terreno teria sido doado à cidade por Joaquim Eugênio de Lima, o homem por trás da abertura da Avenida Paulista, sob a condição de que aquela vista jamais fosse bloqueada.

É uma história bonita.

Faz todo sentido.

E ajuda a explicar perfeitamente o vão do MASP.

Há apenas um problema.


Provavelmente não foi isso que aconteceu.


No próximo capítulo:


O terreno que virou da cidade


Joaquim Eugênio de Lima, José Borges de Figueiredo e a história por trás da suposta doação do Trianon.



Before MASP, There Was a View


Today, it is difficult to imagine Avenida Paulista empty.

Empty of buildings, cars, crowds, and signs. And perhaps it is even harder to imagine that, long before anyone thought of placing a museum there, one of the attractions of this stretch of the avenue was precisely what was not there.

Nothing.

Or rather: there was a view.

To understand why MASP has that enormous open space beneath it, we need to travel back to a São Paulo where Paulista still seemed to end at the horizon.

And we should begin with an Italian word.

Belvedere.

Bel vedere: beautiful view.

In architecture, the term describes a place designed or chosen specifically for contemplating the landscape. It might be a terrace, a pavilion, a viewing platform, or simply a privileged vantage point.

And Avenida Paulista had the perfect place for one.


An avenue above the city


Avenida Paulista opened in 1891 along one of São Paulo’s highest ridges.

Around the middle of the avenue, the geography created something unusual.

The land dropped sharply toward the valley of the Saracura stream, a waterway that would later be channelled beneath what became Avenida Nove de Julho.

It was almost as if the city had naturally opened a window at that exact spot.

From high on Paulista, the eye could travel down the valley toward downtown São Paulo.

Where today we see an irregular wall of high-rises, there was once a much broader view across the city.

São Paulo was still a horizontal city.

And someone realized that this was a place that deserved a lookout.


The Belvedere is born


In the early 1910s, plans began to take shape for a belvedere on this site, designed by the office of Ramos de Azevedo, the architect associated with some of the most emblematic buildings of São Paulo during that period.

The complex opened in 1916.

But do not picture a simple observation deck, with a few people leaning against a railing and staring at the horizon.

São Paulo has never been particularly good at doing things halfway when it wants to impress.

The Belvedere had terraces, reception rooms, a restaurant, spaces for parties, and an extensive pergola.

It was a place from which to look at the city.

But also a place to be seen looking at the city.


The drawing room of São Paulo’s elite


During the 1920s and 1930s, the Belvedere and the park directly across the avenue became one of São Paulo’s most elegant social settings.

There were parties.

Concerts.

Balls.

Gatherings.

Afternoon teas.

Sunday strolls.

It was frequented by the economic, political, and intellectual elite of a city growing wealthy through coffee, industry, and commerce.

In other words, had Instagram existed in the 1920s, quite a few people would probably have tagged themselves at the Trianon.

The place became a kind of drawing room for Avenida Paulista.

And there was something particularly remarkable about the experience.

On one side, you had the city.

On the other, a forest.


The forest across the street


Cross Avenida Paulista today as you leave MASP and you enter Parque Tenente Siqueira Campos.

Almost nobody calls it that.

To São Paulo, it is simply the Trianon.

The park opened in 1892, just one year after Avenida Paulista itself.

And something extraordinary survives behind its gates.

Part of its vegetation is a remnant of São Paulo’s original Atlantic Forest.

Surrounded by buildings, traffic, concrete, and some of the most valuable real estate in Brazil are trees belonging to a landscape that existed before all of this urbanization.

It is a small capsule of the São Paulo that existed before Paulista.

And this gave that stretch of the avenue an almost perfect composition.

On one side:

forest.

On the other:

view.

Between them:

Avenida Paulista.


Trianon on one side. Trianon on the other.


There is also a small piece of São Paulo confusion worth explaining.

Today, when we say “Trianon,” we immediately think of the park.

But the name was also closely associated with the complex on the opposite side of the avenue.

The Belvedere and the park came to function almost as a single urban experience.

You could walk among the trees and, just a few metres later, cross the avenue and find yourself on a terrace overlooking the city.

During the 1920s and 1930s, the park and the Belvedere formed an integrated ensemble that became a symbol of the wealth and social life of São Paulo’s elite.

Perhaps this is where the architectural history of MASP truly begins.

Decades before Lina Bo Bardi drew a single line of the building, this place already possessed two extraordinarily powerful features:

nature on one side and the urban landscape on the other.

Building on this site would inevitably interfere with that relationship.


The view that São Paulo swallowed


Now try something.

The next time you pass MASP, do not look at the museum first.

Stand beneath it.

Turn toward downtown.

Try to look through the buildings.

The opening is still there.

The geography is still there.

The valley still descends toward Avenida Nove de Julho.

But the landscape has changed.

Throughout the twentieth century, São Paulo grew vertically across the valley. Buildings rose directly within that old line of sight, progressively obscuring the panorama that had once made this place a belvedere.

There is a wonderful irony in this.

Decades later, Lina Bo Bardi would make an extraordinary architectural effort not to close that window.

Lina would preserve the opening.

São Paulo would build in front of it.

But we are getting ahead of ourselves.

Because before Lina, before MASP, and even before the disputes involving some of the most powerful figures in twentieth-century São Paulo, we need to answer an apparently simple question:

Who owned this land?

That is where the story begins to get strange.

For decades, an almost perfect version of the story was repeated: the site had supposedly been donated to the city by Joaquim Eugênio de Lima, one of the men behind the creation of Avenida Paulista, on the condition that the view should never be obstructed.

It is a beautiful story.

It makes perfect sense.

And it explains MASP’s enormous open span perfectly.

There is only one problem.


That is probably not what happened.


Next chapter:


The Land That Became the City’s


Joaquim Eugênio de Lima, José Borges de Figueiredo, and the story behind the supposed donation of the Trianon site.



Antes del MASP, había una vista


Hoy es difícil imaginar la Avenida Paulista vacía.

Vacía de edificios, coches, gente y carteles. Y quizá sea aún más difícil imaginar que, mucho antes de que alguien pensara en construir un museo allí, uno de los atractivos de ese tramo de la avenida era precisamente aquello que no había.

Nada.

O, mejor dicho: había una vista.

Para entender por qué el MASP tiene ese enorme espacio vacío debajo de él, tenemos que volver a una São Paulo en la que la Paulista todavía parecía terminar en el horizonte.

Y empezar por una palabra italiana.

Belvedere.

Bel vedere: bella vista.

En arquitectura, el término se utiliza para describir un lugar creado o elegido precisamente para contemplar el paisaje. Puede ser una terraza, un pabellón, una plataforma o simplemente un punto privilegiado de observación.

Y la Avenida Paulista tenía el lugar perfecto para ello.


Una avenida sobre la ciudad


La Avenida Paulista fue inaugurada en 1891 sobre una de las zonas más elevadas de São Paulo.

Más o menos a mitad de la avenida existía una condición geográfica especial.

El terreno descendía bruscamente hacia el valle del arroyo Saracura, un curso de agua que, décadas más tarde, sería canalizado bajo el eje de la actual Avenida Nove de Julho.

Era como si la propia ciudad hubiera abierto una ventana natural en aquel punto.

Desde lo alto de la Paulista, la mirada podía escapar por el valle en dirección al centro.

Donde hoy vemos una pared irregular de edificios, existía una perspectiva mucho más abierta sobre la ciudad.

Era una São Paulo horizontal.

Y alguien se dio cuenta de que aquel lugar merecía un mirador.


Nace el Belvedere


A comienzos de la década de 1910 empezó a tomar forma en aquel terreno el proyecto de un belvedere diseñado por el estudio de Ramos de Azevedo, el mismo nombre asociado a algunos de los edificios más emblemáticos de la São Paulo de aquella época.

El conjunto fue inaugurado en 1916.

Pero no imagine simplemente un mirador con algunas personas apoyadas en una barandilla contemplando el horizonte.

São Paulo nunca ha sido muy buena haciendo las cosas a medias cuando quiere impresionar.

El Belvedere tenía terrazas, salones, restaurante, espacios para fiestas y una extensa pérgola.

Era un lugar desde el cual mirar la ciudad.

Pero también un lugar para ser visto mirando la ciudad.


El salón de visitas de la élite paulistana


Durante las décadas de 1920 y 1930, el Belvedere y el parque situado exactamente enfrente se convirtieron en uno de los conjuntos más elegantes de São Paulo.

Había fiestas.

Conciertos.

Bailes.

Reuniones.

Tés de la tarde.

Paseos de domingo.

Era frecuentado por la élite económica, política e intelectual de una ciudad enriquecida por el café, la industria y el comercio.

En otras palabras: si Instagram hubiera existido en los años veinte, probablemente habría bastante gente marcando su ubicación en el Trianon.

El lugar se convirtió en una especie de salón de visitas de la Paulista.

Y había algo especialmente interesante en aquella experiencia.

De un lado, estaba la ciudad.

Del otro, un bosque.


El bosque al otro lado de la calle


Cruce hoy la Avenida Paulista al salir del MASP y entrará en el Parque Tenente Siqueira Campos.

Pero casi nadie lo llama así.

Para São Paulo, sigue siendo simplemente el Trianon.

El parque había sido inaugurado en 1892, apenas un año después de la propia Avenida Paulista.

Y hay algo extraordinario escondido detrás de sus puertas.

Parte de aquella vegetación es un remanente de la Mata Atlántica original del municipio.

Entre edificios, tráfico, hormigón y algunas de las manzanas más caras de Brasil sobreviven árboles pertenecientes al paisaje que existía antes de toda aquella urbanización.

Es una pequeña cápsula de la São Paulo anterior a la Paulista.

Y eso convertía aquel tramo de la avenida en una composición casi perfecta.

De un lado:

bosque.

Del otro:

vista.

En medio:

la Paulista.


Trianon de un lado. Trianon del otro.


Existe además una pequeña confusión paulistana que vale la pena explicar.

Hoy decimos “Trianon” e inmediatamente pensamos en el parque.

Pero el nombre también estaba íntimamente relacionado con el conjunto situado al otro lado de la avenida.

El Belvedere y el parque llegaron a funcionar casi como una única experiencia urbana.

Se podía caminar entre los árboles y, pocos metros después, cruzar la avenida y encontrarse en una terraza abierta sobre la ciudad.

Durante las décadas de 1920 y 1930, el parque y el Belvedere formaban un conjunto integrado que se convirtió en símbolo de la riqueza y de la vida social de la élite paulistana.

Tal vez sea precisamente aquí donde comienza la historia arquitectónica del MASP.

Décadas antes de que Lina Bo Bardi dibujara una sola línea de aquel edificio, ese lugar ya poseía dos características muy poderosas:

la naturaleza de un lado y el paisaje urbano del otro.

Construir en aquel terreno significaría inevitablemente interferir en esa relación.


La vista que São Paulo se tragó


Ahora haga una prueba.

La próxima vez que pase por el MASP, no mire primero el museo.

Deténgase bajo el gran vano.

Gírese en dirección al centro.

Intente mirar a través de los edificios.

La apertura sigue allí.

La geografía sigue allí.

El valle continúa descendiendo hacia la Avenida Nove de Julho.

Pero el paisaje ha cambiado.

A lo largo del siglo XX, São Paulo verticalizó el valle. Los edificios crecieron precisamente dentro de aquella perspectiva y fueron ocultando progresivamente la vista que había convertido aquel lugar en un belvedere.

Hay una ironía maravillosa en todo esto.

Décadas después, Lina Bo Bardi realizaría un extraordinario esfuerzo arquitectónico para no cerrar aquella ventana.

Lina preservaría la apertura.

São Paulo construiría delante de ella.

Pero nos estamos adelantando.

Porque antes de Lina, antes del MASP e incluso antes de las disputas entre algunos de los hombres más poderosos de la São Paulo del siglo XX, necesitamos responder a una pregunta aparentemente sencilla:

¿De quién era aquel terreno?

Y es ahí donde nuestra historia empieza a ponerse extraña.

Durante décadas se repitió una versión casi perfecta: el terreno habría sido donado a la ciudad por Joaquim Eugênio de Lima, uno de los hombres responsables de la creación de la Avenida Paulista, con la condición de que aquella vista jamás fuera bloqueada.

Es una historia bonita.

Tiene todo el sentido.

Y explica perfectamente el enorme vano del MASP.

Solo hay un problema.


Probablemente no fue eso lo que ocurrió.


En el próximo capítulo:


El terreno que pasó a ser de la ciudad


Joaquim Eugênio de Lima, José Borges de Figueiredo y la historia detrás de la supuesta donación del terreno del Trianon.

 
 
 

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