No Orelhão Tudo Tem Duplo Sentido
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No orelhão, tudo tinha outro sentido
São Paulo, anos 1990.
Eu havia chegado naquela tarde e cometido o primeiro erro de todo turista: acreditar que dominar o idioma era
suficiente para entender a cidade.
Não era.
Naquela época, São Paulo tinha pelo menos dois portugueses. Havia o português ensinado nas escolas e havia o português da Rua Augusta depois das dez da noite.
Descobri o segundo por acaso.
Eu estava hospedado perto da Paulista e saí para conhecer a região. Carregava um guia de São Paulo, um mapa dobrável que jamais voltaria a ser dobrado corretamente e algumas fichas telefônicas no bolso.
Na esquina havia uma banca ainda aberta.
Comprei um jornal de classificados chamado Segundas Intenções.
O slogan deveria ter servido de advertência:
“Classificados para quem sabe o que procura.”
Eu não sabia.
Ao lado da banca havia um orelhão coberto de adesivos.
Era praticamente uma segunda edição do jornal, só que autoadesiva.
Li o primeiro.
MASSAGISTA CARINHOSA
RELAX
LOCAL DISCRETO
Minha lombar estava me matando desde o avião.
A coincidência me pareceu extraordinária.
Coloquei a ficha.
— Alô?
Uma mulher atendeu.
— Boa noite. É sobre a massagem.
— Pode falar, querido.
— Você atende lombar?
Silêncio.
— Atendo.
— Ótimo. E cervical?
Outro silêncio.
— Também.
— Porque começou no avião. Acho que dormi torto.
— Entendi.
— Você faz avaliação antes?
— Avaliação?
— Para saber onde está o problema.
Ela demorou um pouco.
— Normalmente o cliente já sabe onde está o problema.
Achei profissional.
— Perfeito. Quanto tempo dura a sessão?
— Depende do que você quiser.
— Eu quero sair sem dor.
— Geralmente eles saem satisfeitos.
— Excelente. Você trabalha com convênio?
Ela desligou.
Voltei à banca.
— Caiu — expliquei ao jornaleiro.
Ele me olhou.
— Deve ter caído.
E voltou para o jornal.
A tailandesa
Havia outro adesivo.
MASSAGEM TAILANDESA
ATENDIMENTO ESPECIAL
COMPLETA
Aquilo parecia ainda melhor.
Internacional.
Telefonei.
— Sawasdee!
A mulher respondeu.
— Oi?
— Sawasdee!
— Quem é?
— Desculpe. Achei que você fosse tailandesa.
— Por quê?
— Está escrito “massagem tailandesa”.
— A massagem é tailandesa.
— Ah.
Pensei.
— E você?
— De Osasco.
Aquilo me decepcionou um pouco, mas não diminuía sua qualificação.
— Você estudou na Tailândia?
— Não.
— Bangkok?
— Não.
— Chiang Mai?
— Não.
— Então onde aprendeu?
— Aqui.
— Interessante. Deve haver uma comunidade tailandesa grande em São Paulo.
Ela suspirou.
— Você quer marcar ou está fazendo pesquisa?
— Quero marcar. É para lombar.
Silêncio.
— Lombar?
— Principalmente. Mas minha cervical também está ruim.
— Você já ligou antes?
— Para outra massagista.
— E o que aconteceu?
— Caiu.
Ela desligou.
Fiquei olhando o aparelho.
Duas ligações caírem na mesma noite começava a indicar algum problema na Telesp.
Nuru
O próximo adesivo dizia apenas:
NURU
RELAX COMPLETO
PRIVÊ
Voltei à banca.
— O senhor sabe o que é nuru?
O jornaleiro levantou os olhos.
— Sei.
Esperei.
Ele voltou ao jornal.
— E?
— E o quê?
— O que é nuru?
— Liga e pergunta.
Comecei a desconfiar de que o jornaleiro não gostava de turistas.
Telefonei.
— Boa noite. Eu queria uma informação sobre o nuru.
— Claro, amor.
— É japonês?
— Pode ser.
— “Pode ser” como?
— Depende.
— É comida?
Ela riu.
— Não.
— Ainda bem. Porque o anúncio está junto das massagens.
Ela riu mais.
— Você nunca fez nuru?
— Nunca. Cheguei hoje.
— Em São Paulo?
— Também.
— Quer experimentar?
— Antes eu queria saber o que é.
— É melhor experimentar.
— Mas leva óleo?
— Não exatamente.
— Creme?
— Também não.
— Então é a seco?
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Meu bem, você está fazendo curso de massagem?
— Não. Estou com dor nas costas.
A ligação caiu novamente.
Três.
Definitivamente a Telesp precisava verificar aquele orelhão.
Lingam
No jornal encontrei:
MASSAGEM LINGAM
DISCRIÇÃO
ATENDIMENTO PERSONALIZADO
O termo me pareceu médico.
Liguei.
— Boa noite. É “língam”?
— Lingam.
— Isso. É uma técnica?
— É.
— Oriental?
— Sim.
Finalmente alguém objetivo.
— Serve para coluna?
— Não é exatamente para coluna.
— Ciático?
— Não.
— Ombro?
— Não.
— Pescoço?
— Não.
— Então é para quê?
Houve uma pausa.
— Para uma região mais específica.
— Joelho?
Ela começou a rir.
— Não.
— Tornozelo?
Mais risadas.
— Também não.
— Então fica entre o joelho e o pescoço?
— Tecnicamente.
— Abdômen?
Ela desligou.
Quatro quedas.
Fui até a banca.
— Este orelhão está com defeito.
O jornaleiro olhou para mim.
Depois olhou para o orelhão.
— Não me parece.
Acompanhante discreta
Decidi abandonar as massagens.
Minha lombar continuava doendo, mas havia limites para a precariedade das telecomunicações brasileiras.
Abri o Segundas Intenções.
ACOMPANHANTE DISCRETA
ELEGANTE
ALTO NÍVEL
PARA EXECUTIVOS
COMPANHIA AGRADÁVEL
Aquilo resolvia outro problema.
Eu queria jantar e não conhecia ninguém na cidade.
Telefonei.
— Boa noite. Você acompanha?
— Acompanho.
— Para jantar?
— Podemos jantar.
Excelente.
— Conhece bons restaurantes?
— Conheço.
— Italiano?
— Sim.
— Japonês?
— Também.
— Algum lugar perto da Paulista?
— Podemos conversar pessoalmente.
Profissionalíssima.
— Quanto custa?
Ela informou um valor.
Achei caro para jantar, mas talvez incluísse a refeição.
— Isso inclui o restaurante?
— Não.
— Táxi?
— Não.
— Sobremesa?
— Não.
— Então o que inclui?
Ela fez uma pausa.
— Companhia.
— Mas isso eu já tinha entendido.
Outra pausa.
— Você quer só jantar?
— É justamente o que venho tentando explicar.
— Meu querido, chama um amigo.
E desligou.
Cinco.
A telefonia paulistana era catastrófica.
Boca de Veludo
Foi quando encontrei o anúncio mais poético da noite.
BOCA DE VELUDO
UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL
ATENDIMENTO ESPECIAL
Fiquei encantado.
Só podia ser cantora.
Na Augusta, fazia todo sentido.
Telefonei.
— Boa noite. Você canta?
— Como?
— Canta.
— Por que eu cantaria?
— Boca de Veludo.
Silêncio.
— É você?
— Sou.
— Imaginei que fosse nome artístico.
Ela começou a rir.
— Pode chamar assim.
— Jazz?
— Não.
— Samba-canção?
— Não.
— Bolero?
— Também não.
— Você se apresenta onde?
— Onde o cliente quiser.
Aquilo me impressionou.
— Faz eventos particulares?
— Faço.
— Aniversário?
— Se quiser.
— Casamento?
— Nunca me pediram.
— Você tem repertório?
Ela ria tanto que precisou afastar o telefone.
— Tenho.
— Standards?
— Alguns são bastante conhecidos.
— Você é contralto?
— Meu bem, a boca é de veludo. A voz é normal.
Foi a primeira ligação que não caiu.
Eu desliguei.
O rapaz ativo
Outro anúncio:
RAPAZ DISCRETO
MASSAGEM PARA HOMENS
ATIVO
BOM PAPO
LOCAL PRIVATIVO
Finalmente um profissional para homens.
Liguei.
— Você é o rapaz ativo?
— Sou.
— Que bom. Não gosto de massagista preguiçoso.
Silêncio.
— Como?
— O anúncio diz “ativo”.
— Diz.
— Acho importante. A gente paga por uma massagem, o sujeito precisa trabalhar.
— Concordo.
— Faz shiatsu?
— Posso improvisar.
— Sueca?
— Também.
— Desportiva?
— Dependendo do esporte.
Achei a resposta estranha.
— Minha lombar está péssima.
— Você é o cara da lombar?
— Como sabe?
— Estão comentando.
Isso me preocupou.
— Quem?
— Deixa pra lá. O que você procura exatamente?
— Uma massagem.
— Só?
— Se resolver a cervical também, melhor.
Ele começou a rir.
— Amigo, acho que você está ligando para os anúncios errados.
Finalmente.
Uma pessoa honesta.
— Você poderia me explicar quais são os certos?
— Não tenho a noite inteira.
E desligou.
A consultora de imagem
O adesivo seguinte dizia:
TRAVESTI ELEGANTE
PARA CAVALHEIROS
DISCRIÇÃO ABSOLUTA
Telefonei.
— Boa noite. Você trabalha com imagem?
— Trabalho bastante com imagem, amor.
— Imaginei.
— Por quê?
— “Elegante”, “para cavalheiros”. Pensei em consultoria.
— Consultoria?
— Roupa. Estilo. Preciso saber o que usar em São Paulo à noite.
— Pode vir sem nada.
— Sem referência?
— Sem roupa.
— Mas aí como você vai avaliar meu estilo?
Ela gargalhou.
— Você é o turista da lombar?
Fiquei alarmado.
— Como todo mundo sabe da minha lombar?
— Augusta é um bairro muito unido.
— Então você não trabalha com moda?
— De certa maneira, trabalho bastante com pouca moda.
Não compreendi, mas agradeci.
O casal liberal
A essa altura eu começava a achar os paulistanos muito sociáveis.
O jornal confirmava:
CASAL LIBERAL
PROCURA COMPANHIA
AMBIENTE AGRADÁVEL
SEM PRECONCEITOS
Telefonei.
— Vocês recebem gente para jantar?
— Podemos receber.
— Gostam de vinho?
— Muito.
— Cinema?
— Às vezes.
— Baralho?
— Depende do jogo.
— Posso levar minha mulher?
— Melhor ainda.
Que cidade acolhedora.
— Só uma pergunta — disse a voz. — Vocês são liberais?
— Politicamente?
Silêncio.
— Como?
— Prefiro não discutir política no primeiro jantar.
Ela chamou alguém.
Ouvi um homem ao fundo:
— É ele?
— É.
— O da lombar?
— É.
Desliguei antes deles.
Pela primeira vez naquela noite, fui eu quem derrubou a ligação.
O dicionário da Augusta
Comecei a folhear o jornal com mais atenção.
COMPLETA.
Completa de quê?
FRENTE E VERSO.
Gráfica?
PRIVÊ.
Francês.
ALTO NÍVEL.
Cobertura?
PARA EXECUTIVOS.
Networking?
LIBERAL.
Política novamente?
Perguntei ao jornaleiro:
— Por que esses anúncios nunca dizem claramente o que estão oferecendo?
Ele finalmente demonstrou interesse.
— Porque se escrevessem tudo, o jornal não publicava.
— Existem palavras proibidas?
— Um monte.
— Então inventam outras?
— Um monte.
— E todo mundo entende?
Ele me olhou.
— Quase todo mundo.
Voltou ao jornal.
Achei desnecessário enfatizar o “quase”.
Marmita de casal
Um pequeno adesivo quase escondido atrás do telefone dizia:
MARMITA DE CASAL
ATENDIMENTO DISCRETO
Fome eu realmente estava sentindo.
Liguei.
— Boa noite. A marmita vem com arroz?
— O quê?
— Arroz.
— Não.
— Feijão?
— Também não.
— Mistura?
— Depende do casal.
Estranhei.
— Vocês fazem marmita para duas pessoas?
— Não exatamente.
— Mas está escrito “de casal”.
— Está.
— Então qual o tamanho?
— Varia.
— Tem sobremesa?
— Meu querido, isso não é restaurante.
— Então por que chama marmita?
A pessoa respirou fundo.
— É uma expressão.
— Para quê?
— Para uma pessoa que participa com um casal.
Pensei.
— Do jantar?
Ela desligou.
Fui até o jornaleiro.
— Marmita não é marmita.
— Nessa página, dificilmente.
Swing
Foi quando achei algo que finalmente conhecia.
CLUBE DE SWING
AMBIENTE SELECIONADO
CASAIS
NOITES ESPECIAIS
Sorri.
Música.
Finalmente música.
Liguei imediatamente.
— Que horas começa a banda?
— Banda?
— Sim.
— Não tem banda.
— Mas é clube de swing.
— É.
— Sem banda?
— Sem banda.
— Como vocês fazem swing sem banda?
A pessoa pareceu considerar a questão filosoficamente.
— A gente dá um jeito.
— Toca gravação?
— Tem música.
— Benny Goodman?
— Nunca reparei.
— Count Basie?
— Acho que não.
— Duke Ellington?
— Não sei.
— Django?
— Quem?
Aquilo era escandaloso.
— Vocês têm um clube de swing e não sabem quem é Django Reinhardt?
— Amigo, nosso swing é outro.
— Fusion?
Ele desligou.
Eu risquei o endereço.
Um clube de swing que não conhecia Django não merecia minha visita.
Voyeur
A palavra seguinte parecia francesa.
VOYEUR
ENCONTROS DISCRETOS
Telefonei.
— Bonsoir.
— Boa noite.
— Vous parlez français?
— Não.
— Mas é voyeur.
— Sim.
— Vem de voir, não?
Silêncio.
— Acho que sim.
— Então é passeio?
— Passeio?
— Para observar.
— Observar, sim.
— A cidade?
— Não exatamente.
— Arquitetura?
— Também não.
— Pessoas?
— Agora está chegando perto.
— Ah! Um passeio antropológico!
Ele desligou.
Anotei no mapa:
“Possível city tour alternativo.”
Dogging
O inglês eu conhecia.
DOGGING
ENCONTROS
LOCAL COMBINADO
Telefonei.
— Precisa levar cachorro?
— Não.
— Vocês fornecem?
— Cachorro?
— Sim.
— Não.
— Então por que “dogging”?
— É só o nome.
— Aceitam cachorro grande?
— Não tem cachorro!
— Sem cachorro nenhum?
— Nenhum!
— Então o nome é extremamente enganoso.
A pessoa concordou.
Foi uma das conversas mais produtivas da noite.
Cuckold
A palavra seguinte me derrotou antes mesmo da ligação.
CUCKOLD
Liguei.
— Boa noite. É sobre o... “cu-cóld”?
— Cuckold.
— “Câcold”?
— Mais ou menos.
— É alemão?
— Não.
— Restaurante?
— Não.
— Relógio?
— Também não.
— Sobrenome?
— Não.
— Então o que é?
A pessoa começou a explicar.
Interrompi.
— Espere. Tem casal?
— Tem.
— E outra pessoa?
— Geralmente.
— E alguém observa?
— Pode observar.
— Então é o francês?
— Que francês?
— O voyeur.
Silêncio.
— Você está montando um álbum de figurinhas?
— Estou tentando entender o jornal.
— Boa sorte.
Foi a primeira pessoa a desejar isso.
Chuva dourada
Achei que finalmente tinha encontrado uma atração.
CHUVA DOURADA
REALIZAMOS FANTASIAS
Aquilo parecia lindo.
Telefonei.
— A chuva acontece todo dia?
— Se você quiser.
— Mesmo sem previsão?
— Principalmente.
— É em ambiente aberto.
— Melhor não.
— Então é efeito especial?
— Pode chamar assim.
Fiquei animado.
— Confete?
— Não.
— Papel dourado?
— Não.
— Luz?
— Também não.
— Como fica dourada?
Houve um longo silêncio.
— Você realmente quer saber?
Olhei para o jornaleiro.
Ele estava me observando por cima do jornal.
Pela primeira vez naquela noite, tive prudência.
— Pensando bem, não.
Desliguei.
O jornaleiro assentiu.
Eu estava aprendendo.
Zero nove zero zero
Então encontrei um anúncio de página inteira.
TELE-AMIZADE 0900
NÃO PASSE A NOITE SOZINHO
CONVERSE AGORA
PESSOAS INTERESSANTES ESPERAM POR VOCÊ
Depois de tudo aquilo, amizade parecia uma proposta segura.
Disquei.
Uma voz suave atendeu.
— Oi...
— Boa noite.
— Como você se chama?
— Carlos.
Não me chamo Carlos.
Naquela altura achei prudente.
— Está sozinho, Carlos?
— Estou.
— Onde?
— Num orelhão na Rua Augusta.
Pausa.
— Interessante.
— Nem tanto. Está cheio de adesivos.
— E o que você está vestindo?
— Jaqueta.
— Só?
— Não! Calça, camisa, meia...
— Tire a jaqueta.
— Por quê?
— Quero imaginar você mais à vontade.
— Mas está frio.
— Então me conte uma fantasia.
Finalmente.
— Conhecer o MASP sem fila.
Silêncio.
— Outra fantasia, Carlos.
— Conseguir dobrar o mapa de São Paulo do jeito que veio.
— Uma fantasia mais... íntima.
Pensei.
— Encontrar um banheiro limpo no Centro?
Ela respirou fundo.
— Você gosta de experimentar coisas novas?
— Muito.
— O quê?
— Comida.
— Que tipo?
— Estou procurando um bom sanduíche de pernil.
— Carlos...
— Sim?
— Você está nervoso?
— Um pouco.
— Eu posso ajudar você a relaxar.
— Você também faz massagem?
Silêncio.
— Faço o que você imaginar.
— Tailandesa?
— Se você quiser.
— Você é da Tailândia?
— Não.
— Osasco?
Ela riu.
— Não.
— Porque já aconteceu.
— Me conte do que você gosta.
— Arquitetura.
— E o que mais?
— Jazz.
— E o que mais?
— História.
— Carlos...
— Sim?
— Você nunca ligou para um 0900?
— Não.
— Eu percebi.
— É uma central de amizade, certo?
— De certa forma.
— E vocês têm outros departamentos?
— Como assim?
— Tele-Namoro, Tele-Amizade, Tele-Sexo. Vi os anúncios. É tudo a mesma empresa?
Ela começou a rir.
— Não exatamente.
— Porque parece uma progressão.
— Progressão?
— Primeiro amizade, depois namoro...
Ela percebeu antes de mim.
— E depois?
— Bom, imagino que seja o plano premium.
Ela gargalhou.
— Você é engraçado, Carlos.
— Obrigado.
— Continue falando comigo.
— Claro.
— Me conte outra fantasia.
Olhei para a Paulista lá em cima.
— Táxi vazio parando quando eu levantar a mão.
— Outra.
— Metrô 24 horas.
— Outra.
— Encontrar alguém que me explique o que significa “frente e verso”.
Ela ficou em silêncio.
— Onde você viu isso?
— No jornal.
— Qual jornal?
— Segundas Intenções.
— Ah.
Foi o “ah” mais esclarecedor que ouvi naquela noite.
— Você conhece?
— Carlos, todo mundo conhece.
— O jornaleiro disse que há palavras que eles não podem publicar.
— Há.
— Então substituem por outras.
— Exatamente.
— E como alguém de fora vai saber?
— Liga para perguntar.
— Foi o que fiz.
— Quantas vezes?
Contei.
Ela começou a rir novamente.
Conversamos mais alguns minutos.
Talvez dez.
Talvez quinze.
Foi uma conversa agradável.
Até eu reparar nas letras pequenas do anúncio.
TARIFA POR MINUTO.
— Moça?
— Sim, Carlos?
— Isso aqui é cobrado por minuto?
— É.
— Desde quando?
— Desde “boa noite”.
Olhei para o relógio.
— Inclusive enquanto você ri?
— Inclusive.
— E os silêncios?
— Também.
— Quando você pediu para eu tirar a jaqueta?
— Também.
— Quando falamos do MASP?
— Também.
— Quando você ficou em silêncio porque eu falei do banheiro?
— Especialmente.
Fiz as contas.
Minha lombar parou de doer.
Existem dores maiores.
— Carlos?
— Sim?
— Você ainda está aí?
— Estou pensando numa fantasia.
— Qual?
— Voltar no tempo vinte minutos.
Desliguei.
O jornaleiro estava quase fechando a banca.
Entreguei o jornal.
— Aprendeu alguma coisa? — perguntou.
— Bastante.
— Já sabe o que significa “liberal”?
— Não tem relação com política.
— Muito bem.
— “Swing” não é jazz.
— Excelente.
— “Dogging” não tem cachorro.
— Está avançando.
— Nuru não é comida.
— Rápido aprendizado.
— E chuva dourada...
Ele levantou a mão.
— Não precisa.
Concordei.
Foi quando o orelhão tocou.
Nós dois olhamos para ele.
Telefone público tocando sempre parece uma convocação do destino.
Atendi.
— Alô?
Uma voz feminina perguntou:
— Você é o acompanhante?
Olhei para o jornaleiro.
Ele cruzou os braços.
Olhei para o jornal.
Olhei para os adesivos.
Algumas horas antes eu teria respondido imediatamente.
Agora eu era um homem experiente.
— Depende.
— Depende de quê?
Respirei fundo.
— Acompanhante de quê?
A mulher desligou.
O jornaleiro sorriu.
— Agora você está falando paulistano.
Eu ainda não tinha jantado.
Minha tentativa de encontrar companhia fracassara. A massagem não acontecera. O clube de jazz não era de jazz. O passeio francês não era passeio. A marmita não tinha arroz. E eu acabara de gastar uma quantia considerável conversando por telefone sobre arquitetura com uma mulher que claramente esperava outro assunto.
Restava encontrar um bar.
Abri o Segundas Intenções pela última vez.
No canto inferior da página havia um anúncio pequeno.
AMERICAN BAR
Drinks. Música. Ambiente reservado.
Rua Augusta. Aberto até tarde.
Olhei para o anúncio.
Li novamente.
Bar.
Drinks.
Música.
Não havia “completa”.
Não havia “liberal”.
Não havia “frente e verso”.
Não havia “massagem”.
Não havia palavra em francês.
Nenhuma técnica oriental.
Nenhuma previsão meteorológica.
Nenhum cachorro.
Nenhum casal.
Nenhum 0900.
Bar.
Finalmente uma palavra sem duplo sentido.
Mostrei o anúncio ao jornaleiro.
— Esse aqui.
Ele leu.
Depois olhou para mim.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa.
Desistiu.
— Boa noite.
— Boa noite.
Atravessei a Augusta com o Segundas Intenções debaixo do braço.
Encontrei o número.
Conferi no jornal.
Era ali.
A entrada era discreta.
Quase uma porta sem nome.
Guardei o mapa no bolso.
Décadas mais tarde eu criaria a SP by a Local e passaria a contar histórias sobre uma São Paulo que nem sempre se revela nas fachadas, nos mapas ou nos guias.
Naquela noite eu ainda não sabia de nada disso.
Só sabia que estava com fome.
E que, depois de tantas confusões, finalmente tinha encontrado um bar.
Empurrei a porta.
E entrei.



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