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Uma Encruzilhada Chamada São Paulo




Uma Encruzilhada Chamada São Paulo



Desta vez não estou dirigindo.


Estou sentado no balcão de um pequeno café no Brooklin, aproveitando uma rara pausa no meio da tarde. O dia está bonito, quente, daqueles dias em que São Paulo parece respirar um pouco mais devagar.

À minha frente, um copo de vidro que parece ter saído de um laboratório de química.


Um becker.


No My Favorite Corner, o café é servido assim. Não por excentricidade, mas por precisão. Café coado e premiado tratado como uma experiência científica. Cada detalhe importa: temperatura, moagem, tempo de extração.


Atrás do balcão está o Marco, dono da casa e maestro daquele pequeno laboratório de aromas. Ele prepara os cafés enquanto conversa com os clientes com a naturalidade de quem recebe amigos na sala de casa.


Aliás, essa talvez seja a melhor definição daquele lugar.


Não é exatamente um café.


É uma sala de estar que serve café extraordinário.


O ambiente está tranquilo. Sem música. Apenas o som da moagem, da água quente e das conversas que surgem naturalmente entre quem entra ali.


Ao meu lado, um cliente estrangeiro conversa com Marco em inglês.


Ele veio da Isle of Man, uma pequena ilha no Reino Unido. Está no Brasil visitando a família da namorada brasileira, e decidiu aproveitar uma tarde livre para conhecer aquele café de bairro enquanto ela trabalha.


Logo estamos conversando.


Primeiro sobre café. Depois sobre viagens. E em poucos minutos já estamos falando sobre duas paixões curiosamente compartilhadas.


corridas e relógios analógicos.


Ele me conta sobre as lendárias corridas da ilha onde nasceu, como a famosa TT Isle of Man, talvez a corrida de moto mais perigosa e lendária do mundo. Também menciona as corridas de carros históricos que acontecem por lá.


Falamos também sobre relógios.


Não smartwatches.


Relógios analógicos.


Daqueles que carregam história, mecânica e precisão.


Enquanto ele me conta sobre sua ilha no meio do Mar da Irlanda, eu conto sobre São Paulo.


Sobre bairros, culturas, contrastes.


E ali, naquele balcão silencioso de um café no Brooklin, duas geografias completamente diferentes se encontram.

Uma pequena ilha europeia.


Uma cidade monstruosa no sul do mundo.

E então uma ideia me atravessa.


A ideia de encruzilhada.


Lembro imediatamente da arquiteta e pesquisadora Vilma Patrícia, que em sua tese defende que o Largo do Pelourinho, em Salvador, não deveria ser visto apenas como um largo urbano.


Mas como uma grande encruzilhada histórica.


Um lugar onde mundos diferentes se encontraram ao longo dos séculos.


Ali passaram dor e resistência.


Ali passaram culturas.


Ali passaram religiões.


Ali passaram histórias.


Como praticante de umbanda, essa ideia faz muito sentido para mim.


Nas tradições afro-brasileiras, a encruzilhada é um lugar especial.


Um lugar onde caminhos se encontram.


Onde possibilidades se abrem.


Onde mundos diferentes se cruzam.


Um lugar guardado por , o senhor do movimento e abridor de caminhos.


Não apenas o encontro entre o mundo espiritual e o mundo terreno.


Mas o encontro entre destinos, escolhas, ideias e transformações.


Encruzilhadas são lugares onde algo muda.

E sendo um grande flâneur, como descreveu , não posso deixar de dizer:


São Paulo é uma grande encruzilhada.

Poucas cidades no mundo são tão profundamente feitas de encontros.


Pessoas de todos os países.


De todas as línguas.


De todas as histórias.


Aqui aprendemos todos os dias com quem chega.


E com quem passa.


Basta caminhar alguns quarteirões para perceber isso.


Sair do Bixiga, reduto italiano e negro da cidade, atravessar a ponte sobre a 23 de Maio e entrar na Liberdade, território oriental e japonês.


É quase como pegar uma ponte aérea sem jetlag.


De repente mudam os letreiros.


Mudam os aromas.


Mudam as línguas.


Mudam os gestos.


E ainda assim tudo continua profundamente paulistano.


São Paulo tem essa magia.


Ela absorve o mundo e devolve tudo com um sotaque próprio.


Se a cidade é uma grande encruzilhada, meu carro acaba se tornando uma pequena versão dela.


Uma pequena encruzilhada sobre rodas.


Ali dentro se cruzam mundos improváveis.


Executivos.


Turistas.


Artistas.


Famílias.


Pessoas que chegam com expectativas completamente diferentes.


Algumas querem conhecer restuarantes.

Outras querem entender a cidade.


Outras simplesmente querem atravessá-la.


E, muitas vezes, é nesse espaço pequeno e silencioso que novas ideias aparecem.


Novas percepções surgem.


E novas conexões acontecem.


Ao longo dos anos já vi pessoas mudarem completamente de opinião sobre São Paulo.


Já vi clientes descobrirem bairros que nunca imaginaram.


Já vi encontros que abriram portas inesperadas.


E em muitos momentos eu mesmo aprendi mais sobre a cidade através do olhar de quem chega de fora.


Porque São Paulo é assim.


Ela ensina.


Todos os dias.


Todo dia São Paulo entra e sai pelo banco de trás do meu carro.


E cada trajeto deixa uma pequena lição.


Uma pequena observação.


Uma pequena história.


Talvez seja por isso que gosto tanto de escrever sobre esta cidade.


Porque cada esquina esconde um mundo.

E cada encontro pode se transformar em um novo texto.


A SP by a Local nasceu exatamente desse espírito.


Não apenas como transporte.


Mas como conexão.


Conexão entre pessoas.


Entre lugares.


Entre histórias.


É recomendar aquele restaurante escondido.


É saber qual bairro tem mais a ver com a sua vibe.


É mostrar o que evitar.


E principalmente mostrar por que nós amamos tanto esta cidade.


Porque São Paulo não se revela para quem simplesmente atravessa a cidade.


Ela se revela para quem aprende a lê-la.


E talvez o melhor jeito de conhecer São Paulo seja cruzando alguns caminhos com quem já passou muito tempo observando suas encruzilhadas.


Quem sabe nossos caminhos também se cruzem por aqui.


Victor Mendes


SP by a Local



















A Crossroads Called São Paulo



This time, I’m not driving.


Instead, I’m sitting at the counter of a small café in Brooklin, enjoying one of those rare pauses in the middle of the afternoon. The day is warm and bright — the kind of São Paulo afternoon when the city seems, for a brief moment, to slow its breathing.


In front of me sits a glass vessel that looks like it belongs in a chemistry lab.


A beaker.


At My Favorite Corner, coffee is served this way. Not out of novelty, but precision. Award-winning pour-over coffee treated almost like a scientific experiment. Temperature, grind size, extraction time — everything is measured with the seriousness of a laboratory procedure.


Behind the counter is Marco, the owner, quietly orchestrating this small laboratory of aromas. He prepares each cup while speaking with customers in the relaxed tone of someone welcoming friends into his living room.


Which, in many ways, is exactly what this place feels like.


Not quite a café.


More like a living room that happens to serve extraordinary coffee.


The room is calm. No music. Only the sounds of beans being ground, hot water poured, and conversations forming naturally between strangers who quickly feel less like strangers.


Next to me, a foreign customer is speaking English with Marco.


He has come from the Isle of Man, a small island in the United Kingdom. He is visiting Brazil to meet the family of his Brazilian girlfriend and decided to spend a quiet afternoon discovering this neighborhood café while she is at work.

Before long we are talking.


First about coffee. Then about travel. And within minutes we discover two rather unexpected passions we share.

racing and analog watches.


He tells me about the legendary races on the island where he grew up, especially the famous TT Isle of Man, perhaps the most dangerous and mythical motorcycle race in the world. He also mentions the historic car races that still take place there.


Then we drift into watches.


Not smartwatches.


Analog watches.


The kind powered by gears and patience — objects that carry time not just digitally, but mechanically.


While he tells me about his island in the middle of the Irish Sea, I tell him about São Paulo.


About neighborhoods.


About cultures.


About the strange beauty of a city that is constantly reinventing itself.


And there, at the quiet counter of a small café in Brooklin, two completely different geographies meet.


A small European island.


A sprawling South American metropolis.

And suddenly a thought crosses my mind.

The idea of a crossroads.


I remember the architect and researcher Vilma Patrícia, who argues in her research that Pelourinho Square, in Salvador, should not simply be understood as a plaza.


But as a historical crossroads.


A place where worlds have collided and blended for centuries.


Where pain passed.


Where resistance emerged.


Where cultures intertwined.


Where faith and music reshaped the streets.


As a practitioner of Umbanda, this idea resonates deeply with me.


In Afro-Brazilian traditions, the crossroads is not merely a physical intersection. It is a place of possibility.


A place where paths meet.


Where decisions are made.


Where transformations begin.


It is said to be watched over by , the guardian of movement and the opener of paths.


Not simply the meeting point between the spiritual and the earthly worlds.


But the meeting point of destinies.


Of choices.


Of unexpected encounters that quietly alter the direction of a life.


And as a devoted flâneur, in the sense described by , I cannot help but think:

São Paulo itself is a great crossroads.


Few cities in the world are so thoroughly defined by encounters.


People from every country.


Every language.


Every background.


Every ambition.


Here, one learns constantly — from those who arrive and from those who simply pass through.


You only need to walk a few blocks to notice it.


Leave Bixiga, the city’s Italian and Afro-Brazilian stronghold, cross the bridge over 23 de Maio Avenue, and suddenly find yourself in Liberdade, the Japanese and Asian heart of São Paulo.


It feels almost like boarding an international flight without the jet lag.


The signs change.


The aromas change.


The languages shift.


The gestures become different.


And yet everything remains unmistakably paulistano.


That is the peculiar magic of São Paulo.

The city absorbs the world and quietly returns it with its own accent.


If the city itself is a great crossroads, my car inevitably becomes a smaller version of it.


A crossroads on wheels.


Inside it, unexpected worlds intersect.


Executives.


Tourists.


Artists.


Families.


People arriving with completely different expectations.


Some want to discover restaurants.


Some want to understand the city.


Others simply want to cross it as efficiently as possible.


And yet, very often, it is inside that small moving space that new perspectives appear.


New impressions form.


Unexpected connections happen.

Over the years I have watched many visitors completely change their perception of São Paulo.


I have seen people discover neighborhoods they never imagined visiting.


And I have learned, more than once, that seeing the city through the eyes of a newcomer can reveal things even lifelong residents overlook.


Because São Paulo has that effect.

It teaches.


Every single day.


Every day the city enters and leaves through the back seat of my car.


And each ride leaves behind a small lesson.

A small observation.


A small story waiting to be told.


Perhaps that is why I enjoy writing about this city so much.


Because every corner hides a world.

And every encounter has the potential to become a story.


SP by a Local was born precisely from that idea.


Not simply as transportation.


But as connection.


Connection between people.


Between neighborhoods.


Between experiences.


It is about recommending that hidden restaurant.


Knowing which neighborhood fits your rhythm.


Knowing what to avoid.


And, most importantly, showing why we love this city so deeply.


Because São Paulo does not reveal itself to those who simply pass through it.


It reveals itself to those who learn to read it.


And perhaps the best way to discover São Paulo is by crossing paths with someone who has spent years observing its crossroads.


Maybe our paths will cross here as well.


Victor Mendes


SP by a Local




Una Encrucijada Llamada São Paulo



Esta vez no estoy conduciendo.


Estoy sentado en la barra de un pequeño café en Brooklin, disfrutando de una de esas raras pausas en medio de la tarde. El día está cálido y luminoso, uno de esos días en que São Paulo parece, por un momento, respirar un poco más despacio.

Frente a mí hay un recipiente de vidrio que parece salido de un laboratorio de química.


Un beaker.


En My Favorite Corner, el café se sirve así. No por extravagancia, sino por precisión. Café filtrado y premiado tratado casi como un experimento científico. Temperatura, molienda, tiempo de extracción: todo se mide con la seriedad de un procedimiento de laboratorio.

Detrás de la barra está Marco, el dueño del lugar, dirigiendo silenciosamente este pequeño laboratorio de aromas. Prepara cada taza mientras conversa con los clientes con la naturalidad de quien recibe amigos en su sala de estar.


Y, de hecho, esa quizás sea la mejor forma de describir este lugar.


No es exactamente una cafetería.


Es una sala de estar que por casualidad sirve café extraordinario.


El ambiente es tranquilo. No hay música. Solo el sonido del molino de café, el agua caliente cayendo y las conversaciones que surgen de forma natural entre personas que hace unos minutos eran desconocidas.

A mi lado, un cliente extranjero conversa en inglés con Marco.


Viene de la Isla de Man, una pequeña isla del Reino Unido. Está en Brasil visitando a la familia de su novia brasileña y decidió aprovechar una tarde libre para conocer esta cafetería del barrio mientras ella trabaja.


Pronto comenzamos a conversar.


Primero sobre café. Luego sobre viajes. Y en pocos minutos descubrimos dos pasiones inesperadamente compartidas.

las carreras y los relojes analógicos.


Me cuenta sobre las legendarias carreras de la isla donde creció, especialmente la famosa TT Isle of Man, probablemente la carrera de motos más peligrosa y mítica del mundo. También menciona las carreras de autos históricos que todavía se celebran allí.


Después la conversación gira hacia los relojes.


No relojes inteligentes.


Relojes analógicos.


De esos que funcionan con engranajes y paciencia, objetos que llevan el tiempo no solo digitalmente, sino mecánicamente.

Mientras él me habla de su isla en medio del Mar de Irlanda, yo le hablo de São Paulo.


De sus barrios.


De sus culturas.


De la extraña belleza de una ciudad que se reinventa constantemente.


Y allí, en la tranquila barra de un café en Brooklin, dos geografías completamente distintas se encuentran.


Una pequeña isla europea.


Una gigantesca metrópoli sudamericana.

Y entonces un pensamiento me atraviesa.

La idea de la encrucijada.


Recuerdo inmediatamente a la arquitecta e investigadora Vilma Patrícia, quien sostiene en su investigación que el Largo del Pelourinho, en Salvador, no debería verse simplemente como una plaza.


Sino como una gran encrucijada histórica.

Un lugar donde diferentes mundos se encontraron durante siglos.


Por allí pasaron el dolor.


La resistencia.


Las culturas.


La fe.


Las historias.


Como practicante de Umbanda, esta idea tiene mucho sentido para mí.


En las tradiciones afrobrasileñas, la encrucijada no es solo un cruce de calles.

Es un lugar de posibilidades.


Un lugar donde los caminos se encuentran.

Donde se toman decisiones.


Donde comienzan las transformaciones.

Se dice que está custodiada por , el guardián del movimiento y el abridor de caminos.


No solo el punto de encuentro entre el mundo espiritual y el mundo terrenal.

Sino el encuentro de destinos.

De elecciones.


De encuentros inesperados que, silenciosamente, cambian el rumbo de una vida.


Y como un auténtico flâneur, en el sentido descrito por , no puedo evitar pensar:

São Paulo es una gran encrucijada.

Pocas ciudades en el mundo están tan profundamente definidas por los encuentros.


Personas de todos los países.


De todos los idiomas.


De todas las historias.


Aquí se aprende todos los días, con quienes llegan y con quienes simplemente pasan.


Basta caminar unas pocas cuadras para notarlo.


Salir del Bixiga, bastión italiano y afrobrasileño de la ciudad, cruzar el puente sobre la avenida 23 de Maio y de repente llegar a Liberdade, el corazón japonés y asiático de São Paulo.


Es casi como tomar un vuelo internacional sin el jet lag.


Los letreros cambian.


Los aromas cambian.


Los idiomas cambian.


Los gestos cambian.



Y aun así todo sigue siendo profundamente paulistano.


Esa es la magia peculiar de São Paulo.

La ciudad absorbe el mundo y lo devuelve con su propio acento.


Si la ciudad es una gran encrucijada, mi auto termina siendo una versión más pequeña de ella.


Una encrucijada sobre ruedas.

Dentro de él se cruzan mundos inesperados.


Ejecutivos.


Turistas.


Artistas.


Familias.


Personas que llegan con expectativas completamente diferentes.


Algunos quieren descubrir restaurantes.


Otros quieren entender la ciudad.


Otros simplemente quieren atravesarla.

Y muchas veces es dentro de ese pequeño espacio en movimiento donde surgen nuevas perspectivas.


Nuevas impresiones.


Conexiones inesperadas.


A lo largo de los años he visto a muchas personas cambiar completamente su percepción de São Paulo.


He visto visitantes descubrir barrios que jamás imaginaron.


Y más de una vez he aprendido que ver la ciudad a través de los ojos de quien llega por primera vez puede revelar cosas que incluso los habitantes de toda la vida pasan por alto.


Porque São Paulo tiene ese efecto.


Enseña.


Todos los días.


Cada día la ciudad entra y sale por el asiento trasero de mi auto.


Y cada trayecto deja una pequeña lección.


Una pequeña observación.


Una pequeña historia esperando ser contada.


Tal vez por eso me gusta tanto escribir sobre esta ciudad.


Porque cada esquina esconde un mundo.


Y cada encuentro puede convertirse en una historia.


SP by a Local nació exactamente de ese espíritu.


No solo como transporte.


Sino como conexión.


Conexión entre personas.


Entre barrios.


Entre experiencias.


Es recomendar ese restaurante escondido.


Es saber qué barrio tiene más que ver con tu ritmo.


Es saber qué evitar.


Y sobre todo mostrar por qué amamos tanto esta ciudad.


Porque São Paulo no se revela a quienes simplemente la atraviesan.


Se revela a quienes aprenden a leerla.


Y quizás la mejor manera de descubrir São Paulo sea cruzar caminos con alguien que ha pasado años observando sus encrucijadas.


Tal vez nuestros caminos también se crucen aquí.


Victor Mendes


SP by a Local

 
 
 

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